Maioria acredita que Duhalde não fica até o fim

"Le da el cuero?" (Seu couro agüenta?) Esta pergunta é cada vez mais ouvida nas ruas de Buenos Aires, mas também pelos corredores do Congresso Nacional e nos escritórios da city financeira portenha. O "cuero" em questão é o do presidente provisório Eduardo Duhalde, cuja permanência na cadeira presidencial poderia ser uma questão de semanas. Oficialmente, Duhalde completará o mandato do ex-presidente Fernando de la Rúa até dezembro de 2003. No entanto, poucos consideram que chegue até lá, e muitos não o imaginam comandando o país no segundo semestre deste ano. Uma pesquisa do La Nación Online indica que 94,5% dos argentinos não acreditam que Duhalde irá até o prazo previsto. O homem sorridente que tomou posse em janeiro deste ano, alardeando que nunca antes um presidente havia tido tanto apoio parlamentar, atualmente, em vez do sorriso, exibe os cantos da boca cada vez mais para baixo. O tom das declarações de Duhalde ("Sinto-me cada vez mais sozinho", em referência ao apoio político, e "Seja lá o que Deus Quiser", comentando o que poderia acontecer na economia) e sua fisionomia são de um presidente que já renunciou. Motivos para deixar o cargo não lhe faltam, já que não tem o apoio dos governadores nem dos parlamentares. Os empresários não confiam nele, e os sindicatos, antes leais, agora o repudiam. De quebra, o Fundo Monetário Internacional (FMI) não lhe concede ajuda, e o governo dos EUA desconfia dele. O secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, declarou que "o governo argentino é corrupto". Para a comentarista política Nancy Pazos, a relação da Argentina com os EUA e o FMI é "como aquele casal que se separa, e uma das pessoas começa a pensar retrospectivamente que a outra pessoa em uma ocasião havia chegado tarde, que em outro momento gritou muito alto... ou seja, havia dado sinais de que não a amava mais. Bem, os EUA e o FMI estão dizendo a Duhalde que não o querem mais. O problema é que este não quer ver". Extra-oficialmente, abundam relatos sobre tensos momentos das últimas semanas, nos quais ameaçou renunciar. Sua esposa, Hilda "Chiche" Duhalde, famosa por seu forte caráter, teria evitado que isso acontecesse. Há três semanas, durante uma reunião com governadores de seu partido, o Justicialista (peronista), Duhalde teve uma forte discussão e saiu da sala. Os governadores interpretaram o gesto como uma virtual renúncia. Imediatamente, com naturalidade, começaram a discutir entre eles sobre quem poderia ser seu sucessor. A discussão só foi interrompida com a volta de Duhalde, que continuou a reunião como se nada tivesse acontecido. Transição Os governadores apóiam Duhalde com o mínimo necessário para sobreviver no dia-a-dia. Ainda não o derrubaram porque falta definir suas disputas internas. Para os governadores, Duhalde é conveniente - por algum tempo mais - para que faça o "trabalho sujo" da transição. No entanto, nos últimos dias, e diante do agravamento acelerado da crise, dois fortes e ambiciosos caudilhos do peronismo - o governador de Córdoba, José Manuel de la Sota, e o governador de Santa Fé, Carlos Reutemann - começaram a analisar a possibilidade de realização de eleições antecipadas para agosto ou setembro. De la Sota e Reutemann, os dois principais presidenciáveis do peronismo no momento, iriam juntos numa chapa. A idéia é que, se a situação fosse mantida em calma até o ano que vem, Reutemann seria o candidato a presidente e De la Sota a vice. Mas, com a perspectiva cada vez mais evidente de caos econômico e explosões sociais, pediriam eleições já, invertendo as posições, com o cordobês como presidente e o ex-piloto de Fórmula 1 como vice. Não há piedade no peronismo quando o poder está em jogo, costuma-se dizer no âmbito político argentino. "Este é um país onde todos podem sabotar, e por isso muitos poucos podem governar", diz Nicholas Shumway, o acadêmico americano autor de "A invenção da Argentina. História de uma idéia". Foi para contornar os rumores sobre eleições antecipadas que Duhalde até anunciou na semana passada a possibilidade de convocar um plebiscito para que os argentinos escolhessem entre o parlamentarismo e presidencialismo.

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