Maioria das empresas da Bolsa apostou na alta do real

Levantamento mostra que 37 das cerca de 50 empresas não-financeiras da Bolsa têm posições com derivativos

Cesar Bianconi, da Agência Estado,

27 de outubro de 2008 | 17h56

Na lista de empresas não-financeiras que integram o índice Bovespa (Ibovespa), principal indicador do mercado acionário brasileiro, quase quatro em cada cinco companhias possuem contratos de derivativos de câmbio em seus balanços mais recentes disponíveis. Muitos dos casos são swaps de moedas e juros ou contratos de compra e venda futura de dólares, mas alguns envolvem operações mais complexas e arriscadas.   Veja também: Maior perda com câmbio no 3º trimestre é da Aracruz Oito balanços de empresas informam que não há derivativos Eletrobrás iniciou operação com derivativos de câmbio em 2008 Metade do Ibovespa tem ao menos um terço da dívida em dólar Lições de 29 Consultor responde a dúvidas sobre crise   Como o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitos Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise Dicionário da crise    Levantamento da Agência Estado aponta que 37 das cerca de 50 empresas não-financeiras do Ibovespa mantêm posições abertas com derivativos. A maior parte delas ainda não divulgou o resultado do terceiro trimestre e, nesses casos, o estudo leva em conta as notas explicativas das informações trimestrais encaminhadas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) referentes ao encerramento do primeiro semestre.   O dólar saltou de R$ 1,56 no encerramento de julho para cerca de R$ 2,30 no fechamento de quinta-feira, dia em que chegou a flertar com os R$ 2,50 durante os negócios. A valorização de quase 50% da moeda norte-americana em pouco menos de três meses teve início com a deterioração das condições de crédito dos mercados financeiros globais.   A forte alta da moeda norte-americana teve reflexos nos instrumentos financeiros contratados por empresas brasileiras e o assunto ganhou relevância depois que Sadia e Aracruz divulgaram, entre o final de setembro e o início de outubro, perdas bilionárias, após suas tesourarias terem montado posições acima do permitido nas políticas financeiras internas.   A Sadia optou por liquidar todos os contratos, com perda de R$ 760 milhões. A Aracruz resolveu manter em aberto as operações com derivativos, que geraram uma perda contábil de R$ 2,1 bilhões no resultado do terceiro trimestre, divulgado no dia 17. Para reduzir o impacto de novas desvalorizações do real, a Aracruz assumiu uma posição comprada em dólar futuro na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), da ordem de US$ 538 milhões, entre outras medidas. Em 10 de outubro, foi o Grupo Votorantim quem anunciou ter desembolsado R$ 2,2 bilhões para eliminar sua exposição cambial decorrente de operações de swap com verificação em dólar.   Lista   Em meados deste mês, circularam informações de que o governo teria uma lista com o nome de 200 empresas com problemas cambiais por terem apostado na baixa da moeda norte-americana. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou a existência de uma relação de nomes de companhias.   De acordo com o professor de derivativos e riscos Alexandre Jorge Chaia, do Ibmec-SP, a dificuldade de se dimensionar os potenciais problemas é que há muitos contratos fechados entre empresas e instituições financeiras no mercado de balcão, ou seja, sem registro na BM&F. Na quinta-feira, o Banco Central anunciou um programa de venda de contratos de swap cambial no valor de até US$ 50 bilhões, dentro da estratégia de reduzir o impacto da crise financeira internacional sobre a economia brasileira, tirando a pressão sobre o dólar.   Na visão do professor do Ibmec-SP, o risco sistêmico que existia no mercado de câmbio foi reduzido depois da ação do BC. Apesar disso, ele acredita que os contratos com derivativos ainda terão efeito financeiro nos resultados das empresas por um tempo razoável, já que a maioria dos instrumentos tem vencimentos que se estendem por 12 meses ou mais, com ajustes mensais de acordo com as oscilações de moeda. "No curto prazo ainda existe o risco de vermos empresas insolventes, que podem, inclusive, acabar desestabilizando alguns bancos", alertou.   Nesta sexta-feira, o Unibanco divulgou que a marcação a mercado das posições de seus clientes nas operações conhecidas como "Target Forward", isto é, o valor para a liquidação imediata desses contratos, era de cerca de R$ 200 milhões em 23 de outubro. Nas operações alavancadas, o montante estava em R$ 800 milhões.   Segundo a assessoria de imprensa do Unibanco, isso significa que na situação hipotética de todos esses clientes serem chamados a zerar posição e não tiverem caixa, o banco emprestaria recursos e ficaria com uma exposição de crédito a esses clientes que teria o valor de R$ 1 bilhão. O vice-presidente Corporativo e de Relações com Investidores do Unibanco, Geraldo Travaglia, disse que a instituição financeira possui 33 clientes pessoas jurídicas que fizeram operações de opções de derivativos cambiais de "Target Forward", alavancadas ou não.

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