Maioria dos argentinos condena Corte Suprema

"Que se vayan!" ("que vão embora!") é uma das frases mais ouvidas entre os argentinos, quando se referem aos integrantes da Corte Suprema de Justiça. Nos últimos anos, a Corte transformou-se em símbolo da impunidade nos casos de corrupção. Por este motivo, segundo uma pesquisa da Ibope OPSM, nove de cada dez argentinos consideram que a Corte Suprema deve passar por uma intensa reformulação, que implicaria na remoção dos atuais juízes. O motivo desta ojeriza em relação aos juízes é a enorme quantidade de escândalos de corrupção envolvendo seus integrantes. Os juízes se tornaram alvos de constantes panelaços populares, em protesto contra sua permanência no cargo.Segundo a pesquisa, os novos membros da Corte deveriam ser eleitos por voto direto da população. Isso seria acompanhado da difusão prévia dos antecedentes dos juízes. Somente 3,2% dos pesquisados consideram que o presidente da República deveria continuar se encarregando da designação dos juízes.Daqui a dez dias, a Comissão de Julgamento Político da Câmara de Deputados convocará os juízes da Corte Suprema para prestar depoimento sobre uma série de casos de mau desempenho das funções e de corrupção. Posteriormente, a Câmara de Deputados realizará o julgamento dos juízes, cujo destino será determinado pelo Senado. Segundo analistas, tudo indica que a remoção dos juízes da Corte é quase inevitável.Entre as medidas polêmicas tomadas pela Corte na última década estão as irregularidades e as demoras nas investigações sobre o atentando contra a Embaixada de Israel. No caso da venda ilegal de armas para a Croácia e Equador entre 1991 e 1995, os juízes permitiram, sem muitos problemas, a saída do ex-presidente Carlos Menem da prisão domiciliar. O agravante é que dois dos nove juízes haviam declarado publicamente sua "amizade" e "admiração" por Menem.Além disso, os próprios juízes modificaram a lei que estabelecia a idade-limite para a permanência no cargo, podendo, desta forma, ficar mais tempo no poder. Além disso, os juízes são acusados de contradições nos pareceres judiciários sobre o "corralito", denominação do semicongelamento de depósitos bancários. Em dezembro, determinaram que o corralito estava certo, enquanto que, em janeiro, decidiram o contrário. Com estas duas medidas, conseguiram, primeiro, o ódio dos correntistas com os depósitos confiscados, enquanto que, com a segunda, tornaram-se o alvo do governo do presidente Eduardo Duhalde, para o qual o fim do corralito poderia significar o colapso do sistema financeiro.Ex-presidentes não deixam saudadeOs três ex-presidentes mais recentes da Argentina, Raúl Alfonsín (1983-89), Carlos Menem (1989-99) e Fernando de la Rúa (1999-2001) não são lembrados com carinho pela população. Alfonsín fraquejou diante dos militares e terminou seu governo no meio da hiperinflação. Menem triplicou o desemprego, fez aumentar a pobreza no país e governou ao compasso de mais de uma centena de casos graves de corrupção. De la Rúa não fez nada para reverter a situação de penúria deixada pelos dois antecessores e agravou mais ainda o panorama político, econômico e financeiro, deixando o país falido. Por este motivo, segundo uma pesquisa da Jorge Giaccobe e Associados, entre os políticos que possuem menos futuro no país está Alfonsín - 97% dos argentinos consideram-no politicamente morto. Uma quantia exatamente igual pensa o mesmo de De la Rúa. Sobre o horizonte político de Menem, 89% dos argentinos consideram que não possui nenhum. O atual presidente, Eduardo Duhalde, não está em uma situação tão trágica como seus antecessores, mas tampouco exibe um horizonte político exuberante. Para 66% dos pesquisados, "El Cabezón" ("O Cabeção") "não pode oferecer nada para o futuro".Alfonsín começou na semana passada a sofrer "escraches" (protestos personalizados na frente da residência do alvo da manifestação). Menem não se atreve a colocar seus pés em Buenos Aires por temor a protestos contra ele. De la Rúa, a ponto de prestar depoimento na Justiça pelas mortes ocorridas pela repressão policial em seu último dia no poder, não sai de sua chácara.AlemannHoje, ao meio-dia, o ex-ministro da Economia, Roberto Alemann, que caminhava pelo centro financeiro de Buenos Aires, foi reconhecido pelos transeuntes, que começaram a persegui-lo com cusparadas, socos e pontapés. O octogenário Alemann, que foi ministro da Economia durante a Guerra das Malvinas (1982), na última Ditadura Militar (1976-83), escondeu-se rapidamente na sede de um banco, onde salvou-se da fúria dos populares.Leia o especial

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