Maioria não foi beneficiada por 30 anos de crescimento

Renda média per capita dos EUA, ajustada pela inflação, ficou estagnada em US$ 45 mil, entre 1978 e 2007

, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

O boom verificado nas bolsas e no mercado imobiliário, a orgia de empréstimos e os gastos excessivos do consumidor mascararam por muito tempo o fato de que uma maioria avassaladora de americanos não teve nenhum benefício de 30 anos de crescimento. Em 1978, a renda média per capita para os homens nos EUA era de US$ 45.879.

Em 2007, essa renda, ajustada pela inflação, era de US$ 45.113.

Enquanto 90% dos americanos tiveram aumentos apenas modestos da sua renda desde 1973, ela quase triplicou para as pessoas da classe abastada. Em 1979, um terço dos lucros que o país produziu foi para os 1% mais ricos da sociedade americana. Hoje, essa cifra chega a 60%.

Em 1950, um executivo do alto escalão ganhava em média 30 vezes mais do que um operário. Hoje ele ganha 300 vezes mais. E 1% dos americanos detém 37% da riqueza da nação.

A desigualdade de renda nos EUA é maior hoje do que vinha ocorrendo desde a década de 20, exceto que ninguém notou isso.

O sonho americano tem poucas chances. Nos EUA, o livre mercado impera, e os indivíduos de baixa renda são vistos como os próprios culpados por isso. Aqueles que enriqueceram são aplaudidos e copiados. O único problema é que os americanos não se davam conta de que o sonho americano estava se tornando uma realidade para um número cada vez menor de pessoas.

Estatisticamente, os americanos menos ricos têm 4% de chances de fazer parte da classe média alta - uma taxa menor do que a observada em outras nações industrializadas.

Até agora, os políticos não conseguiram oferecer soluções para uma crise financeira que só piora. Washington ainda espera por empregos que não chegam.

O presidente Barack Obama e seu governo parecem fundamentar suas esperanças na ideia de que os americanos acabarão se tornando autossuficientes sem precisar de ajuda - de preferência fazendo o que sempre fizeram: gastando seu dinheiro. Os gastos do consumidor são responsáveis por dois terços da produção econômica americana.

Mas, apesar de o presidente do Federal Reserve (banco central americano), Ben Bernanke, continuar injetando dinheiro no mercado, e mesmo com o déficit do governo atingindo a soma enorme de US$ 1,4 trilhão, todos esses esforços parecem não estar dando resultado.

"As luzes estão se apagando por toda a América", escreveu na semana passada o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, descrevendo as comunidades que não podiam se permitir manter mais suas ruas.

Sem poupança. O problema é que muitos americanos não podem mais consumir porque não têm nenhuma economia. Em alguns casos, suas casas perderam metade do valor e eles não têm mais condições de conseguir um empréstimo a juro mais baixo. Estão ganhando muito menos do que antes ou estão desempregados. Consequentemente, essa situação reduz ou elimina a sua capacidade de pagar impostos.

Dessa forma, muitos governos estaduais e municipais enfrentam enormes déficits do orçamento. No Havaí, as escolas ficam fechadas algumas sextas-feiras para economizar o dinheiro do Estado.

Um condado da Georgia eliminou todos os serviços públicos de ônibus. Colorado Springs, cidade de 380 mil habitantes, desligou um terço das luzes da iluminação pública para economizar eletricidade.

As luzes estão de fato se apagando em algumas áreas, porque a administração, insistindo na necessidade de reduzir os gastos, não está disposta a dar assistência financeira aos governos municipais. "Agora, os EUA estão palmilhando um caminho sem iluminação, sem pavimentação, que não leva a lugar nenhum", adverte o economista Paul Krugman.

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