Mais cinco anos disso?

ANÁLISE: Sérgio Vale*

O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 02h09

Ao final do primeiro mandato de governo, a presidente Dilma deve entregar um crescimento médio anual de apenas 1,9%. A essa altura, já deveria estar claro que alguma coisa muito errada está acontecendo. Não é culpa do cenário internacional. Pelo contrário, o mundo está em franca recuperação e deverá ter crescimento ainda maior em 2014, na contramão de nossa estimativa de 1,6% de alta do PIB no Brasil.

Mas, como estamos em ano eleitoral, a culpa nunca poderia ser doméstica e entende-se que ela seja jogada no exterior, algo muito típico de América Latina. Por isso também o pífio pacote fiscal apresentado recentemente, que não deve dar em nada, surge de um governo para o qual a "crise" é temporária e vem de fora. Em algum momento, a cartola de Brasília descobrirá algum novo truque de arrecadação para ser usado. Tem sido assim ao longo dos últimos três anos, pelo menos.

Vivemos, assim, um governo de negação. Nega que os problemas de crescimento sejam domésticos, nega que seja necessário um ajuste fiscal cavalar, nega que haja uma inflação sistematicamente em 6% desde 2008, nega que o Mercosul não seja mais viável, nega que haja um problema de energia, etc. A lista é infindável e apenas sinaliza as dificuldades que teremos em 2014 e mais a frente.

Na suposição de que a presidente Dilma vença este ano, seria ilusório acreditar que esse espírito de negação vá mudar em 2015. E mesmo que a oposição vença ela sabe que terá de fazer um ajuste real, não de mentirinha. Por isso, o que temos para este ano e o próximo sinaliza uma economia que ainda patinará. Os planos de concessão podem tornar a economia um pouco mais eficiente em alguns segmentos e lugares, mas isso basta? Será que a presidente tem consciência do erro que foi baixar na força bruta o preço de energia? Será que os investidores acreditam que ela não fará mais nada parecido? Essas incertezas continuarão pairando nas decisões de investimento.

O que parece mais preocupante é que início de segundo mandato tende a ser paralisante, especialmente em relação a votações no Congresso. Não é possível esperar mais do que um ajuste fraco na política fiscal de novo, e assim vamos nos arrastando até 2018. As empresas têm de pensar que não será apenas mais um ano difícil, mas possíveis cinco anos muito complicados, de crescimento medíocre e perda de oportunidades para países cada vez mais competitivos, como México, Peru, Colômbia e Chile, apenas para ficar nos vizinhos latinos. Controle de custos será algo cada vez mais necessário no lugar de planejamento de investimento.

*Economista-chefe da MB Associados

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