ANDRE DUSEK/ESTADAO
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Mais clareza no Copom

O comunicado da reunião enunciou não só as razões que levaram o BC a manter os juros nos 14,25%, mas também o que tem de mudar no País para que possam finalmente recuar

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2016 | 21h00

Do ponto de vista da transparência, o Banco Central, agora presidido pelo economista Ilan Goldfajn, marcou um gol decisivo.

O texto divulgado logo após a reunião do Copom enunciou com clareza meridiana não só as razões que o levaram a manter os juros básicos nos 14,25% ao ano, mas sugeriu, também, o que tem de mudar no Brasil para que os juros possam finalmente recuar.

O comunicado foi substancialmente mais longo do que os da administração Tombini. Saiu com 372 palavras; os anteriores tinham, em média, 105. Na prática, também antecipa até certo ponto a Ata do Copom, que a partir de agora será divulgada não na quinta-feira da semana seguinte à da reunião, mas na terça. Será interessante avaliar também o que terá mudado na comunicação.

As principais razões pelas quais o Banco Central entende “não haver espaço para a flexibilização da política monetária” (derrubar os juros) estão tanto nas incertezas que cercam a administração das contas públicas quanto na própria expectativa dos formadores de preços, que continuam apostando numa inflação bastante acima (5,3%) da meta de 4,5% em 2017 e, com isso, tendem a defender-se com mais força com remarcações e, assim, a manter a inércia inflacionária.

As incertezas sobre o ajuste em curso têm natureza essencialmente política. Dependem de que o atual governo deixe de ser interino e de que, para isso, consiga a aprovação do impeachment. Trata-se de uma incerteza porque ainda não há segurança de que o Senado apresente os 54 votos suficientes para garantir o afastamento definitivo da presidente Dilma.

A outra incerteza paira sobre a aprovação no Congresso do Projeto de Emenda à Constituição (PEC) que impede o aumento das despesas do Tesouro acima da inflação. Sem essa aprovação, o ajuste vai pro brejo.

Em compensação, o Banco Central aponta para fatores que vêm puxando em sentido contrário: a probabilidade de que os ajustes sejam mais rápidos; e a alta capacidade ociosa no setor produtivo (máquinas e instalações subutilizadas) que, uma vez acionada, também pode atuar para uma redução mais rápida da inflação.

Quando há duas semanas se pronunciou sobre as incertezas fiscais, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, sugeriu que, até o fim de agosto, haveria mais clareza sobre a eficácia do ajuste. Estaria disponível melhor conhecimento sobre o comportamento da arrecadação e, também, seria melhor aferido o nível de confiança na política econômica. Ficou subentendido que, até fim de agosto, a principal informação também estaria disponível: o País saberia quem seria o chefe de governo efetivado no cargo e que qualidade teria sua política econômica. Essa percepção transpareceu, também, no comunicado do Banco Central.

A conclusão é a de que o comportamento da inflação – e dos juros – está condicionado às grandes decisões que vierem a ser tomadas na área política.

A próxima reunião do Copom está agendada para 30 e 31 de agosto. A partir do quadro traçado pelo Banco Central, não está garantido hoje que então os juros começarão a cair. Dependerá do que tiver acontecido.

CONFIRA:

O gráfico mostra a evolução dos juros básicos (Selic) desde 2009.

A colher de Temer

Nesta quarta-feira, o presidente em exercício Michel Temer se viu obrigado a voltar a garantir autonomia total do Banco Central na condução da política de juros. Esse pronunciamento soou como desautorização do ministro chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que havia cometido a gafe de dizer, sem a menor cerimônia, que o presidente Temer gostaria de que os juros caíssem. Deixou a impressão de que Temer estava metendo sua colher no caldeirão do Banco Central.

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