Mais da metade da população mundial é de classe média

Informação é da revista britanica The Economist, que avalia que a classe média brasileira é um 'caso de estudo'

Daniela Milanese, da Agência Estado

13 de fevereiro de 2009 | 15h14

Pela primeira vez na história, mais da metade da população mundial é de classe média, graças ao rápido crescimento dos países emergentes, aponta a revista The Economist. A edição desta semana traz uma reportagem especial de 20 páginas sobre o crescimento da classe média nas nações em desenvolvimento, um motor capaz de estimular o crescimento econômico e a democracia nas próximas duas ou três décadas - apesar da pausa que será feita durante a crise atual.  O comportamento dessa camada da população nos emergentes é exemplificado logo na abertura da reportagem por uma cena registrada na favela de Paraisópolis, em São Paulo, onde a Casas Bahia inaugurou uma loja recentemente. "A multidão surge de todos os lugares, mãos acima da cabeça e câmeras de celulares fotografando um dos mais conhecidos grupos de samba do Brasil", diz a revista. "Poderia ser em qualquer lugar da maior cidade da América Latina num sábado à noite. Mas é em Paraisópolis, uma das favelas com maior criminalidade de São Paulo." A publicação nota que a Casas Bahia passou a vender televisores e refrigeradores em um lugar que, à primeira vista, não tem água nem energia instaladas. "As coisas são caras, mas as formas de pagamentos são melhores para pessoas como nós", diz a faxineira Maria. "Está é a nova classe média emergente indo às compras", conclui a revista. Para a The Economist, do ponto de vista de mercado, a classe média emergente é relativamente pobre, mas muito grande, o que oferece oportunidades para oferecer produtos que são baratos e podem ser vendidos aos milhões. Essa nova camada criou um enorme mercado. Em 2008, o número de carros vendidos nos maiores emergentes superou o comércio nos Estados Unidos pela primeira vez. Em 2007, a Índia tinha mais usuários de celulares do que os EUA - e a China o dobro disso. Desde 1994, o setor de serviços cresceu entre 250% e 700% nas nações em desenvolvimento. A publicação avalia que a nova classe emergente se parece com a existente na Inglaterra há 150 anos. "Eles querem viajar, melhorar o serviço de saúde, escolas privadas e melhor infraestrutura." Estimativas apontem que há 30 milhões de crianças chinesas aprendendo a tocar piano. Em uma observação mais "frívola", o Brasil é o número um do mundo em lipoaspirações, o número dois em cirurgias plásticas (somente atrás dos EUA) e o número quatro em academias de ginástica. Diana Farrell, membro do norte-americano National Economic Council, avalia que a real transformação trazida pelo consumo é a sinalização dada aos produtores. "A demanda dos consumidores da classe média emergente alimenta o investimento em novas formas de produção, o que eleva as receitas e muda a forma como os negócios são conduzidos." Conforme a revista, o melhor exemplo é o carro Nano produzido pela indiana Tata Motors, com preço de US$ 2,5 mil. Antes do seu surgimento, ninguém acredita ser possível produzir um automóvel por menos de US$ 5 mil. Apesar de se mostrar otimista com o futuro da classe média emergente, a revista The Economist avalia que seu crescimento sofrerá uma pausa em decorrência da crise. No entanto, acredita que, se as turbulências durarem não mais do que um par de anos, a máquina emergente vai voltar a funcionar quando o crescimento for retomado. "Scott Fitzgerald estava errado", diz a publicação. "Não são os ricos que são diferentes, mas a classe média."   'Caso de estudo' A classe média brasileira é um "caso de estudo", avalia a revista. "O Brasil se tornou um país de classe média por sua própria conta", diz a publicação, lembrando que em abril do ano passado o número de famílias com renda entre R$ 1.064,00 e R$ 4.561,00 atingiu 52% da população. A revista diferencia os países que possuem classe média criada pelo governo daquelas apoiadas na iniciativa privada - caso do Brasil recente. A publicação lembra que nos anos 1960 essa camada da população cresceu com base nos empregos fornecidos pelas empresas brasileiras estatais. No entanto, a situação não se sustentou, resultando em grande desigualdade social e períodos de hiperinflação nos anos 1980. Entre 2001 e 2008, o País experimentou uma longa fase de crescimento com inflação baixa, levando a população a planejar seus horizontes e a tomar crédito. "Isso permitiu que uma nova classe média - uma nova geração, na maioria entre 30 e 40 anos - começasse a acumular ativos", diz a publicação. Com o crescimento econômico e a melhora do mercado de trabalho, o País expandiu fortemente o número de empregos formais. Além disso, graças parcialmente ao programa Bolsa-Família, o Brasil conseguiu melhorar a desigualdade social. "O crescimento de uma nova classe média no Brasil veio juntamente com a estabilidade política."

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