Mais da metade dos argentinos vive na pobreza

Mais da metade da população argentina vive na pobreza e um terço tem problemas de emprego. Esta é a realidade que continua sendo mantida na Argentina desde o ano passado, conforme os números oficiais do governo, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). No país, de 36 milhões de habitantes, 26,3% vive em estado indigente, sem contar a zona rural, que não entra nas cifras do Indec, onde se estima que viva 10% da população. Abaixo da linha de pobreza se encontra nada menos que 54,7% da população. Na metodologia do Indec, indigente é quem não possui recursos nem para alimentar-se, e abaixo da linha de pobreza é o cidadão que não consegue pagar gastos com saúde, educação e moradia. No primeiro caso, a pessoa não chega a ganhar 106 pesos por mês (US$ 35) e, no segundo caso, recebe igual ou menos que 232 pesos por mês (US$ 78) . Em termos de habitantes, 19 milhões encontram-se em condições paupérrimas, enquanto que 9,2 milhões vivem em situação extrema de indigência.Em meio à esse cenário pessimista, a queda no índice de desemprego de 17,8% para 15,6%, de outubro do ano passado a maio deste ano, respectivamente, anunciada pelo ministro de Economia, Roberto Lavagna, ontem, não animou ninguém de fora do governo. A notícia que já havia sido divulgada há duas semanas pela AE, foi totalmente relativizada pelos especialistas. O economista Esteban Fernández Medrano, por exemplo, colocou na balança o número da População Economicamente Ativa (PEA) que cresceu apenas 0,4%. "Isso favoreceu o resultado, porque diante de uma menor oferta de mão-de-obra, menor é a taxa de desemprego", argumentou. Se as pessoas beneficiadas pelo plano social do governo Chefes e Chefas de Lares não tivessem sido incluídas na medição como "empregados", a pobreza teria alcançado 55,3% , a indigência 29,7% e o desemprego teria subido para 21,4%, ressalta o economista.Números mascaradosO fato do governo incluir como empregados e fora das listas de pobres e de indigentes as duas milhões de pessoas atendidas pelo programa Chefes e Chefas de Lares mascara os números reais do desemprego, pobreza e indigência no país. As cifras atuais, com a inclusão destes, seriam as mesmas que foram registradas em maio de 2002 - o que significa que, apesar da retomada do crescimento do país e da melhoria da economia, a situação social continua igual ao do pior ano da crise. Porém, o ministro Roberto Lavagna, insistiu em minimizar os efeitos do plano social nos números do Indec e, por sua insistência em querer mascarar as cifras, chegou a ser comparado, por alguns jornalistas argentinos, com "uma arrogância digna de seu antecessor Domingo Cavallo".Segundo o Indec, se o plano Chefes e Chegas de Lares não tivesse incluído, a Argentina teria apresentado 585 mil desempregados a mais do que apresentou Roberto Lavagna. Para o advogado trabalhista Julián de Diego, "aos índices que publica o Indec é preciso somar 30% a mais de desemprego, pois eles não incluem o desempregado não demandante, e sim o cartoneiro", referindo-se às catadores de papéis e cartões. Ele lembra que, para estimar a desocupação, é preciso combinar as cifras de pobreza, indigência, emprego e desemprego. Do contrário, ficam de fora dos índices os desocupados que não buscam trabalho porque não têm dinheiro para o transporte. O especialista não duvida em afirmar que o índice real de desemprego e sub-emprego na Argentina, hoje, é de 20% em ambos casos.

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