Denise Vilar/ Arquivo Pessoal
Denise Vilar/ Arquivo Pessoal

Mais de 3,5 milhões de brasileiros ingressaram no mercado de trabalho no fim de 2020

Estudo da consultoria IDados, com base em microdados do IBGE, mostra que maioria é formada por mulheres de 30 a 59 anos, autodeclaradas de cor branca, mais escolarizada e em grande parte moradoras do Nordeste

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2021 | 14h44

RIO - A pandemia de covid-19 afugentou milhões de brasileiros do mercado de trabalho, desde os que perderam o emprego até quem decidiu ficar em casa para se proteger. Apesar do recrudescimento da doença nos últimos meses, a redução do auxílio emergencial e a necessidade de complementar a renda familiar têm trazido de volta quem passou meses sem trabalhar nem procurar por uma vaga.

Mais de 3,5 milhões de brasileiros ingressaram no mercado de trabalho no último trimestre de 2020, seja procurando emprego, seja em alguma ocupação, mesmo que precária e informal. Nessa multidão que forma a nova mão de obra disponível, a maioria é formada por mulheres, com idade entre 30 e 59 anos, autodeclaradas de cor branca, mais escolarizada e em grande parte moradoras da Região Nordeste, onde o recebimento do auxílio emergencial alcançou uma proporção maior de domicílios. 

Os achados são de um estudo da consultoria IDados, com base nos microdados mais recentes divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), obtidos com exclusividade pelo Estadão/Broadcast.

"Num primeiro momento, a crise no geral tirou muita gente do mercado de trabalho, as pessoas pararam de procurar. Em parte porque tinha o auxílio, mas em parte porque não tinha emprego. Com a diminuição do auxílio, que agora volta com valor menor, a gente espera que essas pessoas comecem a voltar para o mercado de trabalho. Num primeiro momento, essas pessoas vão estar como desempregadas, buscando emprego", previu Mariana Leite, pesquisadora da consultoria IDados responsável pelo estudo.

Segundo Mariana Leite, o perfil de quem está voltando ao mercado de trabalho é o de quem foi mais prejudicado pela crise no emprego provocada pela pandemia, mas conseguiu sobreviver sem precisar se recolocar imediatamente de forma mais precária, graças ao auxílio emergencial.

No último trimestre do ano passado, quando o auxílio foi reduzido, praticamente dois terços dos trabalhadores de volta ao mercado de trabalho eram mulheres. Os brancos somavam 1,923 milhão, embora representem menos da metade das pessoas em idade de trabalhar. Os brasileiros com mais anos de instrução também foram maioria nesse grupo em busca de uma chance no mercado de trabalho: mais de 2,3 milhões tinham ao menos o ensino médio concluído, sendo que 1,096 milhão deles terminaram o ensino superior.

É o caso da jornalista natalense Denise Vilar, de 40 anos. Contratada como prestadora de serviços por uma empresa de eventos em janeiro de 2020, começou a trabalhar de casa em março, devido às restrições provocadas pela pandemia. Como muitos dos eventos realizados pela empresa foram adiados ou cancelados, logo ela foi desligada, assim como outros funcionários.

“Não procurei logo outro emprego porque o cenário era de muita gente sendo afastada do trabalho, com exceção de quem atuava em serviços essenciais. Era só o que se via. Eu não enxerguei nenhuma possibilidade de procurar emprego naquele momento”, contou.

Com uma filha de 2 anos, a renda familiar de Denise passou a ser composta pelos serviços pontuais do marido, Guilherme Moura, de 47, que atua como parecerista de eventos culturais, e da revenda eventual de uma marca de cosméticos. “Não recebia muita coisa, mas já ajudava. Além disso, dependíamos da ajuda da família mesmo”, afirma.

Recentemente, a jornalista voltou a procurar um emprego, mas diz que tem sido difícil, porque a situação do mercado de trabalho continua ruim. “Há poucas novas oportunidades de trabalho abertas, principalmente na área de comunicação. Cheguei a participar de uma seleção, mas não fui chamada. Mesmo assim, tenho buscado todas as oportunidades que vejo ou que me indicam”, disse Denise.

Esse movimento de retorno ao mercado de trabalho de milhões de pessoas que estiveram na inatividade durante a pandemia deve fazer a taxa de desemprego no País alcançar novos recordes nos próximos meses, preveem especialistas. Depois de ter encerrado o ano de 2020 aos 13,9%, a taxa de desocupação deve saltar para cerca de 16% no segundo trimestre de 2021, de acordo com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

"A tendência é que o ápice seja no segundo trimestre deste ano, mas que no terceiro siga parecido, com alguma acomodação, com previsão de melhora apenas no quarto trimestre, pela questão sazonal de geração de vagas", estimou Rodolpho Tobler, economista responsável pelos indicadores do mercado de trabalho do Ibre/FGV.

O pesquisador lembra que, no fim do ano passado, com o afrouxamento das medidas sanitárias anticovid e maior circulação de pessoas, houve aumento, sobretudo, no emprego informal.

"Claro que, no primeiro trimestre deste ano, a recuperação do emprego ainda se dará pela informalidade. Isso acaba sendo um padrão depois de períodos de crise, a melhora do mercado de trabalho começa por uma inserção de trabalhadores de forma mais precária. Com a redução do auxílio emergencial, a urgência pela renda passa a ser muito maior, então as pessoas acabam procurando e encontrando o trabalho que for possível, seja o tipo de renda que for", lembrou Tobler.

No trimestre encerrado em janeiro, últimos dados divulgados pelo IBGE, a população inativa - formada pelas pessoas em idade de trabalhar que não têm um emprego nem buscam uma vaga - somava mais de 76 milhões de pessoas, um aumento de mais de dez milhões em relação ao mesmo período do ano anterior. Nesse grupo, um recorde de quase seis milhões estavam em situação de desalento, brasileiros que gostariam de trabalhar, mas que deixam de procurar emprego por acreditarem que não conseguiriam uma vaga, por exemplo.

A taxa de desemprego no País teria alcançado 19,8% no trimestre encerrado em janeiro caso a força de trabalho tivesse mantido o crescimento anual que registrava no pré-pandemia, ou seja, foi o aumento extraordinário na inatividade provocado pela crise sanitária que fez o resultado ficar em 14,2% no período, calculou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

"A partir do momento que tinha um auxílio do governo, você podia ficar em casa não só esperando a pandemia melhorar, mas o mercado de trabalho melhorar. O principal empregador de mão de obra, que era o setor de serviços, estava parado. A partir do momento que tem um auxílio menor, que está abarcando menos famílias, não tem jeito, essas pessoas que foram para a inatividade no ano passado vão começar a procurar emprego. É o que já está acontecendo", escreveu Maria Andréia Parente Lameiras, técnica de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas (Dimac) do Ipea. / COLABOROU PEDRO JORDÃO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO, DO RECIFE

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