Rodrigo Sales/ Estadão
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Mais de 800 caminhões de grãos seguem parados na fronteira com Venezuela

Maior parte da frota leva alimentos exportados pelos produtores roraimenses ao país vizinho, que enfrenta há anos restrições de produção; 72 carretas com alimentos perecíveis foram liberadas hoje

Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2022 | 12h42
Atualizado 06 de janeiro de 2022 | 22h09

BRASÍLIA - Enquanto segue o impasse entre a elite do funcionalismo federal e o governo de Jair Bolsonaro, mais de 800 caminhões ainda estão parados na fronteira do Brasil com a Venezuela esperando a liberação pela Receita Federal. Nesta quinta-feira, 6, foram liberadas 72 carretas com alimentos perecíveis, mas 300 caminhões esperam no asfalto e outros 500 em deslocamento, segundo o  inspetor adjunto da Receita em Pacaraima (RR), Aderaldo Eugênio da Silva. "A operação padrão continua, pois o governo federal infelizmente não reconheceu nosso trabalho", disse. 

O diretor do Departamento de Comércio Exterior da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento de Roraima, Eduardo Oestreicher, disse ter a expectativa de que pelo menos 85 carretas sejam liberadas por dia ao longo desta semana. "Esse é um número expressivo até para um dia de fluxo normal. Mas deve levar um tempo até que o volume represado seja liberado", afirmou.

A maior parte da frota leva alimentos exportados pelos produtores roraimenses ao país vizinho, que enfrenta há anos restrições de produção. Pela manhã, o governo de Roraima estimou que a carga parada na fronteira somava R$ 150 milhões, sendo a maior parte de grãos. Havia também mantimentos perecíveis, como carnes, mas esses caminhões foram liberados nesta quinta.

O caminhoneiro Mateus Monteiro de Oliveira, 57 anos, começou a fazer a rota entre Boa Vista (RR) e a Venezuela há dois meses. Investiu em uma carreta com capacidade para transportar até 30 toneladas de açúcar em cada viagem, mas já começa a ter prejuízo com a paralisação da Receita Federal na fronteira, em Pacaraima. 

Ele relata que estava do lado Venezuelano quando a operação padrão dos auditores fiscais começou, e teve o caminhão – já vazio - retido no país vizinho por vários dias e somente ontem conseguiu retornar ao Brasil. Hoje, já novamente carregado com açúcar, é um dos mais de 800 motoristas que aguardam na fila mais uma vez. 

“Liberaram os caminhões vazios ontem para entrarem no Brasil. Já carreguei de novo em Boa Vista e estou aqui na fila. Estou esperando liberarem a entrada pelo menos no pátio da Receita para dormirmos esta noite. E somente amanhã de manhã sairá uma nova lista de quem poderá seguir até a Venezuela”, afirma. 

Além do prejuízo com a carreta parada, o profissional reclama da fata de estrutura na fronteira, sem energia elétrica, banheiro ou mesmo um local para alimentação. “Precisamos largar o caminhão e voltar andando para conseguir fazer uma refeição. Além do que já gastamos com o diesel, cada dia parado aqui tem um custo de no mínimo R$ 100 com o básico de alimentação”, calcula. “O clima não é bom, porque a viagem é muito desgastante. Você investe na carreta e fica com ela estacionada, sem receber e, pior ainda, gastando. Você fica com seu ganha pão parado”, completa.

O governador de Roraima, Antonio Denarium (PP), se reuniu na quarta, 5, com os sindicatos de transportadores da região e com representantes o Sindifisco no Estado. O impasse, porém, está nas mãos do governo federal. Por isso, a assessoria do governador informou que ele deve tentar retomar as conversas com o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Procurado, o Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (Sindifisco), relatou que não houve nenhum avanço nas negociações com o governo sobre o bônus de eficiência. A categoria segue em “operação tartaruga” e mais de 1.200 auditores já haviam entregado os cargos de chefia e coordenação no começo dessa semana, em um total de 7.500.  O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait) também aguarda uma resposta do ministro do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni. Até o momento 160 auditores do Trabalho também deixaram suas posições de comando, de um total de 298.

O movimento começou após o presidente Bolsonaro anunciar em dezembro que faria uma reestruturação das carreiras policiais ligadas ao Ministério da Justiça, como a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal. O governo chegou a reservar R$ 1,7 bilhão no Orçamento de 2022 para atender apenas as categorias de segurança que são base de apoio do seu governo.

O Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate) aprovou no fim de dezembro um calendário de mobilização de servidores públicos por reajuste salarial, incluindo paralisações em janeiro - a primeira no dia 18 -, e assembleias em fevereiro para deliberar sobre uma greve geral. O presidente do Fonacate, Rudinei Marques, confirmou hoje que não houve até o momento qualquer sinalização do governo no sentido de abrir uma negociação.

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