Mais de quase nada

Há meses, o ministro Guido Mantega avisa que está preparando um pacote de decisões do governo destinadas a evitar a excessiva valorização do real, mas não consegue inventar nada de especialmente poderoso para reverter a tendência do câmbio.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Apesar da multiplicação das advertências de que a saída de dólares por meio do forte aumento das importações pode provocar fuga de capitais, continua entrando mais moeda estrangeira do que saindo e isso empurra as cotações do câmbio para baixo.

Mas o que fazer para reverter esse jogo que vai tirando competitividade do setor produtivo brasileiro, porque encarece em dólares os bens exportáveis que têm custos em reais?

O problema começa quando se pretende definir o que é "excessiva valorização do real", o que implica eleger um piso abaixo do qual o governo não deixará que as cotações deslizem.

Em seguida, trata-se de saber como agir. Como não dá para voltar ao câmbio fixo, fazer alguma coisa será quase inevitavelmente tirar mais de quase nada. É, por exemplo, levar o Banco Central a aumentar suas compras de moeda estrangeira e incrementar as reservas. Mas já se viu que, além do custo da operação, hoje de US$ 18 bilhões por ano, essa exibição de exuberância contribui para atrair ainda mais moeda estrangeira ou para impedir que saia (o que dá mais ou menos no mesmo), e, dessa maneira, injetar mais combustível para uma maior valorização do real.

A ideia de acionar as compras de moeda estrangeira por meio do Fundo Soberano do Brasil também não muda em muito as coisas. Para isso, o Fundo deverá contar com abundantes recursos fiscais, o que não acontece. E adquirir dólares com reais obtidos com a venda de títulos públicos significa aumentar o endividamento bruto para obter efeito limitado.

Às vezes, o ministro Mantega lamenta a forte entrada de dólares no mercado de ações e no de renda fixa. No entanto, quem quer capitalizar a Petrobrás na maior operação dessa natureza em todos os tempos; quem quer arrumar mais recursos para Banco do Brasil, BNDES, Caixa, Eletrobrás e para as empresas brasileiras que precisam crescer tem de aceitar a maciça entrada de dólares. Quem quer borboletas tem de tolerar a ação das lagartas - já ensinava o Pequeno Príncipe.

A Selic, é claro, precisa cair para reduzir a desproporção entre juros internos e externos e, assim, evitar a especulação. Mas, ao contrário do que tanta gente pensa, os juros altos demais no Brasil não são manifestação de perversidade do Banco Central. São consequência do que está aí, que, no fundo, tem a ver com o baixo índice de poupança interna e com a enorme propensão ao aumento do gasto público, que obriga o Brasil a ter a dívida que tem.

Também não faz sentido taxar com IOF a entrada de capitais, num momento em que o País precisa desesperadamente de recursos para desenvolver o pré-sal, o trem-bala, as obras da Copa do Mundo, da Olimpíada e para tanta coisa mais.

A falta de opções pode ser chocante, mas é um dado da realidade. Para compensá-la, não faz sentido pretender segurar o dólar no grito. A economia do Brasil está pagando no câmbio o preço do bom desempenho até mesmo durante a maior crise desde os anos 30.

A arrecadação bombeia

A arrecadação do governo federal segue batendo recordes. Foi em agosto 15,3% mais alta do que em agosto de 2009. E na acumulada do ano foi 12,6% mais alta.

É o consumo...

O principal fator que puxou a arrecadação foi o forte crescimento das vendas, de 14,2%, no período de sete meses imediatamente anterior a agosto. É mais um indicador que confirma a expansão do consumo em consequência do aumento das despesas públicas, do avanço do crédito e do esticão da massa salarial.

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