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Mais do que confiança

Com baixa rentabilidade, as empresas precisam de fôlego para voltar a investir

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2016 | 05h00

O desfecho cada vez mais próximo da batalha do impeachment anima todos aqueles que ligam a retomada da confiança à eliminação das incertezas sobre a continuidade do governo Temer. Nada mais natural, uma vez que a tomada de decisões de impacto não costuma combinar com dúvidas sobre mudanças nas regras do jogo.

É verdade que os indicadores que medem as expectativas em relação à economia já vêm detectando um ligeiro avanço do otimismo – ou pelo menos um recuo do pessimismo. Basta ver, por exemplo, a evolução da pesquisa Focus, do Banco Central, que capta os “sentimentos” do mercado financeiro: mais uma semana de queda, ainda que modesta, nas estimativas de inflação e de redução do PIB. Ou o indicador antecedente de emprego, da FGV, que atingiu em julho o nível mais favorável desde março de 2014. Ou ainda o índice de confiança dos empresários das pequenas indústrias, feito pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que mostrou, também em julho, o melhor resultado desde setembro de 2013,

Confiança, porém, não dura para sempre. E não resolve, por si só, todos os problemas. Em primeiro lugar, é preciso deixar bem claro de que confiança estamos falando. Mais ainda, de como cada segmento conta com o governo para sustentar esse clima.

1) Os grandes agentes econômicos, principalmente o mercado financeiro, clamam por um ajuste fiscal rápido e profundo, ancorado no corte de gastos, e já criticam abertamente a excessiva “flexibilidade” da equipe econômica. Para os mais impacientes, o que tem vigorado até agora, como no caso da renegociação das dívidas dos Estados, é a lei do “pressionou, levou”. Além disso, veem com bons olhos a cautela na política de juros do BC.

2) O setor produtivo aguarda informações mais consistentes sobre as reformas previdenciária e trabalhista, e torce por uma queda rápida dos juros. Também não quer nem ouvir falar sobre aumento de impostos.

3) O cidadão comum não vê a hora de que o País vire a página do ajuste fiscal e entre de novo na rota do crescimento. Com a retomada do emprego, a melhora da renda e tudo mais a que tem direito. E, em alguns bolsões da classe média, há até o sonho de alguma “folguinha” na cotação do dólar, que permita a volta às viagens e ao consumo lá fora.

A pergunta que fica é se dá para conciliar todos esses objetivos. E principalmente em que prazo. Se tudo correr bem para Temer, no embate final do impeachment, e se os sustos com a Lava Jato não passarem de sustos, ainda assim o tempo é inimigo do governo.

As eleições vêm aí e, como se sabe, campanha e trabalho no Congresso são coisas incompatíveis. Além disso, não há porque se iludir que as pressões contra o ajuste desaparecerão. Por último, falta ainda uma ponta para unir confiança e retomada do crescimento. Com baixa rentabilidade e alto endividamento, as empresas também precisam de tempo para retomar o fôlego e embarcar numa nova rodada de investimentos.

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