Mais do que só competência, resiliência

Capacidade de enfrentar problemas de maneira positiva tem se tornado cada vez mais importante para as carreiras, segundo consultores

GUSTAVO COLTRI, O Estado de S.Paulo

16 Março 2014 | 02h13

Diante de histórias tristes todos os dias, os profissionais do núcleo de psico-oncologia do A.C. Camargo Cancer Center encontram motivação para tornar mais fácil o duro tratamento a que estão submetidos os pacientes do hospital. "Procuramos estimular que eles tenham comportamentos positivos, de olhar para a vida de acordo com suas possibilidades. E, nesse processo, os pacientes nos ensinam muito. Encontramos pessoas maravilhosas que recarregam nossas baterias", conta a diretora dessa divisão no hospital, Maria Teresa Lourenço.

Seis psiquiatras e 13 psicólogos realizam encontros periódicos com as pessoas em tratamento no núcleo. "Às vezes, ficamos chateados porque nos identificamos mais com alguns. Quando isso ocorre, procuramos pedir para outro colega atender o paciente, mas é natural se emocionar. Se não sentíssemos nada, não daria para continuar", diz Maria Teresa.

Assim como essa capacidade de renovação diante dos desafios é o motor para a equipe do A.C. Camargo, ela pode mudar para melhor a rotina de trabalhadores em contextos menos dramáticos. O conceito de resiliência discutido no ramo da psicologia positiva tem ganhado importância para a área de gestão de pessoas, tanto na seleção de candidatos quanto no gerenciamento das carreiras.

"Esse é um tema novo na rodas de RH e empresariais, mas importante, porque o executivo vive constantemente sob pressão para obter resultados, produtividade e metas", diz o diretor executivo da recrutadora Talenses, Rodrigo Vianna.

Os líderes mais resilientes, segundo ele, demonstram otimismo diante das mudanças ou desafios e procuram atuar sem dar espaço para o desespero. "Outra característica importante é a confiança baseada em produtividade. Quando você sabe que pode agir em uma situação difícil, é mais fácil de enfrentá-la."

Segundo a diretora de coaching, counseling e mentoring da consultoria Career Center, Mara Turolla, a ideia de flexibilidade é central no conceito de resiliência, baseado em duas vertentes principais "Uma delas considera que essa é uma capacidade inata das pessoas, e outra que acredita que ela possa ser desenvolvida com as experiências", conta.

Independentemente da maleabilidade de cada trabalhador, alguns cuidados podem contribuir para que profissionais consigam lidar positivamente com os problemas, na opinião da especialista. "A pessoa tem de trabalhar o autoconhecimento e o desenvolvimento dos seus pontos fracos, além de ter um plano de ação. Se você sabe o que quer, verá a dificuldade como algo temporário", diz. Cercar-se de informações positivas também espanta o desânimo, na avaliação de Mara.

Ela acredita que desenvolver a resiliência é essencial, juntamente com a capacidade de manter o foco, para lidar com o mercado de trabalho atual, mais dinâmico e competitivo. "Quanto mais alto a pessoa estiver na hierarquia da empresa, mais ela será exigida", diz.

Por outro lado, o exercício da habilidade de recuperação coloca-se como um dos principais desafios para os profissionais mais jovens, segundo Marcelo Braga, sócio da Search Consultoria em RH. Beneficiada pelos bons níveis de emprego no País, ele acredita que a chamada Geração Y não está acostumada a frustrações. "A pessoa se depara com um primeiro ponto que não agrada no emprego e desiste. Vemos jovens muito promissores que não conseguiram voar na carreira porque não permaneceram na empresa por um tempo razoável", conta.

Traçar planos e cultivar a paciência, diz Braga, estão entre as ações possíveis para remediar os rompantes de desistência. "Antes de tomar uma decisão, faça pelo menos cinco consultas com pessoas de perfis distintos. Não adianta consultar o amigo do lado, que pensa igual a você", adverte o consultor.

Ferramenta. A psicóloga Tábata Cardoso, integrante do departamento de pesquisa da Vetor Editora, desenvolveu um teste psicológico para identificar os pilares da resiliência. A ferramenta, baseada em diversos estudos acadêmicos já publicados sobre o tema, reuniu em 11 categorias as principais características de pessoas com a capacidade de enfrentar os problemas de maneira positiva (veja cada um dos itens ao lado).

"A pessoa resiliente não é aquela que vai enfrentar o problema sem sofrer. Ela pode sofrer, mais vai refletir ao mesmo tempo e sempre vai conseguir algo de bom para o futuro."

O teste, utilizado por empresas de recrutamento e profissionais de RH, é composto por um conjunto de frases afirmativas sobre situações cotianas. O avaliado deve pontuar as sentenças de acordo com o grau de concordância com as mensagens. "O objetivo é investigar qual é o tipo de atitude adotada diante de problemas pessoais ou de situações conflitantes, seja no trabalho ou na família", diz.

Conhecer quais fatores contribuem mais para a resiliência pode ser útil, segundo Tábata, para ajudar a fomentar planos de desenvolvimento de carreira nas organizações - ela considera possível o aperfeiçoamento dos pilares. Em processos seletivos, essa informação também poderia facilitar os entrevistadores a identificar quais valores pessoais dos candidatos condizem com as necessidades da vaga oferecida e da organização.

A diretora da empresa de recrutamento e seleção Job for Job, Ana Lúcia Hashimoto Serafim, fez uso do instrumento antes de decidir qual profissional ocuparia o posto de gerente de expansão de um grupo do setor moveleiro. "Como era uma vaga nacional e a pessoa teria de viajar muito, o aspecto desprendimento do candidato era muito importante", conta. Ela usou as informações para complementar as entrevistas feitas durante o processo de escolha.

Entre as vantagens do teste, Ana Lucia aponta a adequação das categorias às necessidades do mercado corporativo. Entre as limitações, ela coloca o caráter mais superficial de avaliação. "São poucos os aspectos trabalhados para uma avaliação de desempenho de um profissional em uma empresa."

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