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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Mais do que uma simples coincidência

Não é mera coincidência. Foi como o mercado recebeu a notícia da descoberta de reservas gigantes de óleo e gás na Bacia de Santos no mesmo momento em que a Petrobrás reabre negociações com a Bolívia, a pré-anunciada crise de escassez de gás começou no Rio de Janeiro e São Paulo e o presidente Lula visita a sede da estatal para participar de reunião do Conselho Nacional de Política Energética. A presença de óleo em grande quantidade em Santos já era conhecida, não constitui novidade. As novidades são a quantidade dimensionada, que eleva as reservas brasileiras de 13,75 bilhões para 20 bilhões de barris, e a confirmação de que o óleo - do tipo leve e mais valorizado - foi encontrado na camada pré-sal que se estende ao longo de 800 quilômetros de litoral entre Espírito Santo e Santa Catarina. Portanto, expectativas promissoras de outras megadescobertas em futuro próximo. Mas essa notícia por si só não conseguirá abafar avaliações de incompetência do governo na gestão da crise do gás nem criar um clima favorável ao Brasil na negociação com a Bolívia. Se é para impressionar Evo Morales com produção nacional, mais eficaz seria apressar o cronograma de produção de gás no litoral de Santos e Espírito Santo. Afinal, esses são problemas de curto prazo que precisam ser tocados com a rapidez exigida pelo crescimento da demanda interna. A megadescoberta anunciada ontem só vai produzir resultados em longuíssimo prazo, em quatro a seis anos, quando forem concluídos complexos investimentos para a retirada do óleo e gás que se encontram a seis quilômetros da superfície, a mais intensa profundidade já pesquisada no Brasil. Não faltou nos planos de marketing do anúncio de ontem o agrado a Lula pela honra da visita à sede da Petrobrás no Rio de Janeiro. Pela manhã, a expectativa entre os funcionários da empresa era de que o próprio Lula daria a boa notícia à tarde, o que não se confirmou. A entrevista foi dada pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que revelou ter sido o governo informado oficialmente da descoberta na última segunda-feira, mas só ontem, três dias depois, a Petrobrás decidiu anunciá-la à população. Ontem, o preço das ações da estatal subiu mais de 15%, por efeito da descoberta. Quem detinha o privilégio da informação teve chance de ganhar dinheiro operando na Bolsa. Três dias é um prazo longo para tal segredo ser guardado a sete chaves. Se a suspeita de vazamento do índice de inflação levou o IBGE a abreviar de 24 horas para apenas 2 horas sua divulgação para o governo, no caso deveria ser redobrado o cuidado e tornado ainda mais breve o anúncio de uma notícia que tem o poder de elevar em mais de 10% a cotação da ação de uma empresa na Bolsa. Aumentar as reservas de petróleo em 50% e com expectativa de crescer mais com novas descobertas em futuro próximo deixa o País mais alegre e esperançoso. Mas governo e Petrobrás precisam enfrentar com eficácia e competência a crise do gás, não tratá-la como um "probleminha do Rio de Janeiro", como a ela se referiu o presidente Lula. Será um problemão se o verão for seco, os reservatórios das hidrelétricas reduzirem o nível da água e o gás precisar ser desviado para as termoelétricas. *Suely Caldas é jornalista E-mail: sucaldas@terra.com.br

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