WERTHER SANTANA/ESTADAO
WERTHER SANTANA/ESTADAO

Mais escolarizada, classe média ainda recorre a ‘bicos’

Entre 2008 e 2018, contingente com ensino médio ou superior subiu de 38% para 48% nessa faixa de renda, mas alta não evitou o desemprego

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 04h00

A nova classe média chega ao fim de sua primeira década de existência presa em um paradoxo embalado pela desaceleração da economia a partir de 2014. Apesar de essa população estar mais escolarizada – o total de pessoas de renda média com ensino superior subiu dez pontos porcentuais, para 48% –, o número de indivíduos vivendo de “bicos” cresceu, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva.

Em 2008, 41% da classe C tinham emprego formal, enquanto 35% declaravam estar na informalidade ou trabalhar por conta própria. No ano passado, 40% tinham carteira assinada e 38% viviam de “bicos” ou atuavam por conta própria. Embora a crise tenha tido papel inegável no aumento das pessoas trabalhando na informalidade, o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, diz que há fatores sociais por trás do empreendedorismo entre os integrantes da classe C.

Apesar de a trajetória dos brasileiros de classe média ter sido parecida com a de uma montanha-russa – com forte crescimento até 2014 e uma freada sem precedentes de 2015 a 2017 –, o especialista diz que o acesso a novas categorias de consumo trouxe confiança a esses brasileiros. “Uma coisa é certa: paladar não regride e o brasileiro não quer abrir mão das conquistas.”

Assim, as pessoas estão mais dispostas a correr atrás dos próprios objetivos. O levantamento mostra que, quando questionados sobre a responsabilidade pela melhora de suas vidas, o esforço individual aparece em primeiro lugar isolado – citado por 65% dos entrevistados – e bem à frente de “agentes externos”, como a igreja, o governo ou a ajuda de familiares.

Segundo Meirelles, essa confiança na própria capacidade também se reflete na valorização de suas características, em vez da tentativa de se “mesclar” a outros grupos. Por isso, há muito mais membros da classe média que se identificam como negros. Entre 2008 e 2018, o total de negros da classe C passou de 41% para 59%.

Correndo atrás

A busca por melhores condições de vida pauta o dia a dia da família Pires, que vive no Jardim Miriam, na zona sul de São Paulo. Boa parte da renda da casa vem de atividades informais. Flávio Neves Pires, de 46 anos, ganha dinheiro no conta-gotas, vendendo doces feitos pela mãe – Maria, de 73 anos – em eventos e no Parque do Ibirapuera. “Vendi muito bem no carnaval”, comemora.

Flávio equilibra o trabalho de ambulante com serviços esporádicos de construção civil – a combinação de ambos lhe rende cerca de R$ 1,5 mil mensais. O restante do dinheiro da família vem da venda de salgadinhos, que também saem da cozinha de Maria. O principal objetivo de Flávio é ver a filha de 19 anos formada na universidade.

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