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Mais globalização em resposta à crise mundial

Lideranças devem buscar respostas para a distribuição de riqueza com mais globalização, e não com protecionismo nacionalista

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 18h40

Tão negada e rejeitada nos quatro anos de governo Trump, a globalização volta a galope.

A pandemia já é, por si só, uma demonstração de sua força. O vírus se disseminou pelas viagens, pela imigração, pelos encontros de negócios, pelos congressos e eventos internacionais. E é também pelas vacinas – mais de 200 em desenvolvimento no mundo – que será dizimado.

Até mesmo antes do presidente Trump, a globalização foi atacada pelos líderes nacional-populistas que vicejaram em muitos países. Mas foi Trump que reuniu mais instrumentos para tentar abatê-la. Declarou que implantaria os interesses dos Estados Unidos na frente de quaisquer outros, mesmo que fossem mundiais; onde conseguiu, reimplantou o protecionismo nos negócios e destruiu acordos comerciais; combateu a imigração por meio da construção de muros e da negação de vistos de entrada no país; esvaziou a ação de organismos multilaterais, como a Organização das Nações Unidos (ONU), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial do Comércio (OMC); e decretou nova guerra fria contra a China.

Com essa estratégia isolacionista pretendeu criar condições para o retorno de fábricas aos Estados Unidos que tinham migrado para o exterior em busca de melhores condições de produção. E, também, assegurar a recuperação de postos de trabalho e de melhores condições salariais para os trabalhadores americanos.

Fracassou. O déficit comercial dos Estados Unidos não foi reduzido, ao contrário, aumentou. As fábricas não voltaram, os salários se achataram e o patrimônio familiar da classe média foi corroído pelos juros negativos.

A maior demonstração desse fracasso foi a derrota nas eleições presidenciais justamente no chamado Cinturão da Ferrugem (do qual participam os Estados de Wisconsin, Pensilvânia e Michigan), que se tornara cemitério de indústrias a céu aberto.

O novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, promete uma reviravolta nessas políticas. Promete coordenar uma frente internacional de combate ao vírus e restabelecer a estratégia multilateralista nas suas relações comerciais com outros países. Para isso, anuncia a reativação da Parceria Transpacífico, boicotada por Trump. E levar a sério uma política mundial de ataque ao aquecimento global, também esvaziada pelo adversário republicano. Um dos seus projetos é liderar uma ordenada substituição de combustíveis fósseis por combustíveis limpos na matriz energética dos Estados Unidos.

O mundo dos negócios perdeu centenas de bilhões de dólares com a pandemia porque teve de enfrentar o isolamento do consumidor e a retração da atividade econômica. E, também, pela desorganização das cadeias globais de produção e distribuição. Mas, nisso, perdeu mais por falta de coordenação global do ataque à pandemia do que por imprevidência administrativa dos dirigentes de empresas.

Ao contrário de fecharem-se em si mesmos, os administradores das grandes empresas parecem ter entendido que a resposta à crise é mais globalização, e não menos. Do ponto de vista dos poderes públicos, cabe controlar a peste no seu início – e portanto prestar mais atenção às informações, seja qual for sua origem – e prover testes mais rapidamente. Do ponto de vista das empresas, trata-se de intensificar o uso de tecnologia e de novas formas de trabalho, como o home office; e de ampliar o mercado para bens e serviços por meio da identificação de novos centros de consumo ao redor do mundo. 

A China, que já vinha intensificando os projetos da nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), com investimentos de US$ 1 trilhão em infraestrutura marítima e terrestre na Ásia, na Europa e na África, acaba de fechar amplo acordo comercial no eixo Ásia-Pacífico, que abrange nada menos que 14 países, correspondentes a 30% do PIB global. Ou seja, a China, um país fechado, que já vinha ocupando o vazio das potências ocidentais em tecnologia de ponta, acaba por assumir a liderança do livre-comércio multilateral.

O protecionismo nacionalista e o populismo não acabarão de um dia para o outro. Sempre haverá descontentes e quem explore o descontentamento entre eles. O descontentamento só refluirá se as lideranças globais conseguirem dar respostas coordenadas para criação de riquezas e sua mais justa distribuição. E isso tem a ver com mais globalização.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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