Tony Cenicola/The New York Times - 21/5/2020
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coluna

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Mais homens fazem tarefa doméstica, mas mulheres ainda trabalham o dobro em casa, aponta IBGE

No ano passado, 80,6% dos homens se dedicaram a algum afazer doméstico, gastando uma média de 11 horas por semana nesse trabalho, enquanto as mulheres passaram 21,4 horas semanais fazendo essas atividades

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2020 | 10h00

RIO - O número de homens se dedicando a afazeres domésticos e cuidados de outras pessoas, como crianças e idosos da família, seguiu uma trajetória de lento crescimento em 2019, mas eles ainda gastam em torno da metade do tempo dedicado pelas mulheres a atividades como cozinhar, lavar louça, limpar os cômodos ou lavar roupa, segundo estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira, 4.

No ano passado, 80,6% dos homens de 14 anos ou mais se dedicaram a algum afazer doméstico ou cuidaram de pessoas, ante 80,4% em 2018 e 74,10% em 2016. São 643 mil homens a mais de 2018 para 2019. Só que eles gastaram, em média, 11 horas por semana com esses afazeres, incluindo o cuidado com crianças e idosos, enquanto as mulheres gastaram uma média de 21,4 horas semanais.

No total, 149 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais, ou 87,1% da população nessa faixa etária, se dedicaram a afazeres domésticos ou cuidado de pessoas no ano passado, segundo o estudo Outras Formas de Trabalho 2019, feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C).

O estudo mostra que as mulheres trabalham mais em casa mesmo quando estão empregadas - ou seja, trabalham em jornada dupla. Os homens “ocupados” (que têm um emprego, formal ou não, conforme a classificação das pesquisas sobre mercado de trabalho) dedicam 10,4 horas por semana para afazeres domésticos, contra 18,5 horas das mulheres ocupadas. Os homens sem ocupação aumentam essa dedicação para 12,1 horas semanais, enquanto, no caso das mulheres sem ocupação, são 24 horas semanais dedicadas a afazeres domésticos ou cuidados com pessoas.

Além disso, em 2019, as mulheres ocupadas que também cuidavam de tarefas do lar gastaram 34,8 horas em seus trabalhos remunerados fora de casa, totalizando uma dupla jornada de 53,3 horas por semana. Os homens ocupados que também fizeram tarefas domésticas trabalharam em média 39,9 horas em seus empregos, com dupla jornada de 50,3 horas.

Para piorar a discrepância entre homens e mulheres em relação à divisão dos cuidados do lar, a diferença de horas dedicadas entre os afazeres domésticos e o cuidado de pessoas tem crescido. Em 2019, as mulheres gastaram 10,4 horas a mais do que os homens a essas atividades, exatamente a mesma diferença registrada em 2018, mas acima do visto em 2017 (10,1 horas) e 2016 (9,9 horas), início da série histórica dessas informações na Pnad-C.

Segundo Alessandra Brito, analista do IBGE, o número de homens fazendo tarefas domésticas pode continuar crescendo, mas o tempo que eles dedicam a essas atividades permanece baixo porque o tempo exigido por cada afazer varia. Por exemplo, um marido que tire o lixo de casa ou leve os filhos na escola está entre os homens que fazem afazeres domésticos, mas o tempo despendido com essas tarefas “é muito diferente” do que o exigido para cozinhar, fazer a limpeza do domicílio ou lavar roupa, disse a pesquisadora.

Desequilíbrio estrutural 

Se os aspectos culturais de caráter estrutural que ditam os papéis na sociedade de homens e mulheres seguem por trás da falta de equilíbrio na divisão de tarefas, uma má notícia do estudo do IBGE é que esses padrões parecem se perpetuar nas novas gerações.

Enquanto 78,6% dos homens fazem tarefas do lar (sem considerar cuidados com pessoas), contra 92,1% das mulheres, quando se considera toda a população com 14 anos ou mais, a discrepância é maior quando se considera apenas as pessoas que moram na condição de “filho(a) ou enteado(a)”: em 2019, apenas 66,5% dos filhos ou enteados faziam tarefas domésticas, contra 84,8% das filhas ou enteadas.

“Os homens estão fazendo mais afazeres, mas entre filhos e enteados tem uma diferença maior (em relação às mulheres). Quando moram com pais mães, as filhas tendem a trabalhar mais, perpetuando o desequilíbrio”, afirmou Alessandra.

Como já indicado nas edições anteriores do estudo, essa diferença entre a proporção de homens e mulheres fazendo tarefas domésticas é maior no Nordeste (69,2% dos homens com 14 anos ou mais, contra 90,2% das mulheres) e menor entre as pessoas de maior escolaridade (85,7% dos homens com ensino superior completo, contra 93,4% das mulheres com o mesmo nível de instrução).

Outra sinalização negativa para a equidade de gênero trazida no estudo de 2019 é que o aumento do número de homens se dedicando aos afazeres domésticos pode ter a ver mais com o fato de mais homens estarem morando sozinhos do que por causa de uma melhor divisão de tarefas entre os casais.

Quando é responsável sozinho pelo domicílio, 92,6% dos homens cozinham e lavam a louça e 86,7% cuidam da limpeza. As taxas são equivalentes às das mulheres responsáveis sozinhas pelo domicílio: 97,5% e 85,3%, respectivamente. Quando moram com um cônjuge, 57,7% dos homens cozinham e lavam a louça e 67,8% se dedicam à limpeza, ante 97,5% e 85,5%, respectivamente, no caso das mulheres.

Segundo os pesquisadores, não há dados que confirmem se há mais homens morando sozinhos, e se isso explicaria o aumento no número de homens fazendo serviços domésticos, mas, na passagem de 2018 para 2019, o tipo de domicílio com um único morador foi o único que cresceu proporcionalmente em relação às demais configurações. Com 700 mil domicílios de apenas um morador a mais, esse tipo respondia por 16,2% do total de lares brasileiros em 2019, ante 15,5% em 2018 e 15,4% em 2016.

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