Mais influentes

O que o ranking dos conselheiros mais bem relacionados do País diz sobre a situação dos conselhos de empresas abertas no Brasil

Naiana Oscar, de O Estado de S.Paulo,

07 Agosto 2012 | 16h08

SÃO PAULO - Quaisquer duas pessoas no planeta estão separadas por no máximo seis conhecidos. É o que diz a famosa teoria do mundo pequeno, comprovada em 1967, nos Estados Unidos, por um experimento que envolveu remessas de cartas e provou que dois indivíduos aparentemente distantes têm entre si apenas seis graus de separação. Um pesquisador do Instituto de Finanças da Fundação Getúlio Vargas decidiu aplicar essa teoria nos conselhos de administração de empresas de capital aberto no Brasil. E chegou à conclusão de que esse mundo é ainda menor.

É um ecossistema formado por executivos e empresários que estudaram nas mesmas faculdades (USP, FGV e UFRJ predominam), trabalharam juntos ou já se esbarraram em reuniões de conselho. Nesse grupo de 1.983 conselheiros não há mais que cinco graus de separação entre um e outro.

"A rede de relacionamento afeta diretamente o fluxo de informações entre as empresas - para o bem e para o mal", diz o professor Wesley Mendes-da-Silva, autor do estudo premiado no mês passado pela Sociedade Brasileira de Finanças. "Para o mal, porque as empresas estão sujeitas a vazamentos de informações estratégicas e para o bem, porque os conselheiros podem, por meio de sua rede de contatos e seu conhecimento, influenciar negócios e decisões."

Mendes-da-Silva analisou as informações enviadas por 384 companhias abertas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no ano passado. Essa foi a segunda fase da pesquisa, que começou dois anos atrás, com a análise dos conselhos brasileiros entre 1997 e 2007.

Mais do que mostrar as conexões entre empresas, o estudo mapeou os conselheiros mais bem relacionados e influentes do País - quem tem mais assentos em conselhos e quem se conecta ao maior número de outros conselheiros. "São os mais visíveis e de certa forma os mais influentes desse mundinho pequeno", diz o pesquisador.

Fotografia. O grupo de dez senhores destacados acima é também um retrato fiel do que são os conselhos de empresas no Brasil. Primeiro: não há mulheres. Elas estão presentes em apenas 7,7% dos conselhos de administração, segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Nos Estados Unidos, o porcentual é de 15,7% e na Noruega, país com a maior presença de conselheiras, é de 40%. "A diversidade de perfis é imprescindível para o bom desempenho de um conselho", diz Roberta Nioac Prado, conselheira do IBGC. "A presença feminina, em muitos casos, garante essa diversidade, mas ainda é pequena."

A segunda informação desse retrato também indica um outro atraso. Há poucos conselheiros independentes. A recomendação dos órgãos de governança corporativa é de que mais da metade dos membros não tenha ligação com a empresa e com os controladores. Para as companhias que estão listadas nos níveis mais altos de governança da BM&FBovespa, a exigência mínima é de 20%. E é exatamente esse o porcentual predominante nas companhias brasileiras. Em geral, elas cumprem o mínimo.

Na comparação com o mercado de capitais mais maduro do mundo - o americano - o Brasil perde feio. Lá, 84% dos assentos são ocupados por independentes. "Esse seria o melhor dos mundos", diz o consultor de governança Herbert Steinberg. "O ideal é sempre ter alguém livre para se opor e criticar."

Se essa lista aí de cima fosse um conselho imaginário, seria um exemplo até que generoso da presença de independentes. À primeira vista, há quatro exemplares deles entre os mais influentes conselheiros do País: o ex-ministro Mailson da Nóbrega, que costuma emprestar seu nome para os conselhos de que participa; o ex-consultor da Booz Allen Oscar Bernardes - que fez seu portfólio de conselhos entre antigos clientes; o ex-executivo do Citibank, Álvaro de Souza; e Nildemar Secches - que atua como independente em cinco conselhos, exceto no da BRF, onde foi executivo por mais de uma década. "A independência de um conselheiro é algo difícil de se constatar porque laços de amizade também influenciam", diz Mendes-da-Silva.

E uma terceira constatação: entre os notáveis, sete acumulam a participação em mais de cinco conselhos - número máximo na orientação do IBGC. Sócio da empresa de investimentos Bahema, Guilherme Affonso Ferreira aparece em oito conselhos e diz que conta com a ajuda dos seus analistas para se preparar para as reuniões. "As empresas exigem mais ou menos dos conselheiros, dependendo do momento em que se encontram", afirma. "Agora, a Gafisa (que registrou R$ 1 bilhão de prejuízo em 2011) está tomando 60% do meu tempo."

Mailson da Nóbrega, está em sete conselhos. E Nildemar Secches, em seis. "Para cada reunião, é preciso até três dias para se preparar", diz Roberta, do IBGC. "Como a maioria dos conselheiros mantém outras atividades, fica muito puxado."

Para não perder pontos no Índice Dow Jones de sustentabilidade corporativa, o Itaú, por exemplo, exige que seus conselheiros participem de, no máximo, quatro conselhos.

Conexões. O estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas, e atualizado a pedido do Estado, foi o primeiro levantamento a mostrar as relações entre conselheiros no País e a revelar quem são os mais "conectados". Nos Estados Unidos, o "entrelaçamento de conselhos" é estudado há mais de uma década, com foco no conflito de interesses que pode haver quando duas ou mais empresas compartilham o mesmo conselheiro.

Um caso que ficou conhecido no mercado americano foi o do presidente do conselho do Google, Eric Shmidt, que por três anos foi também conselheiro da Apple. A saída dele em 2009 coincidiu com um momento em que as duas empresas estavam passando de parceiras a concorrentes. Na época, especulou-se que a presença dele no conselho da empresa de Steve Jobs estava sendo investigada por órgãos antitruste e que isso também teria motivado sua saída.

No mapa de relacionamento feito pela FGV não foi identificado nenhum compartilhamento de conselheiros entre companhias concorrentes. É mais comum a ligação entre clientes e fornecedores. A construtora Gafisa, por exemplo, compartilha o conselheiro Guilherme Affonso Ferreira, com a fabricante de telhas Eternit. "Há um nítido potencial de colaboração entre essas duas empresas", diz Mendes-da-Silva. Ferreira não se lembra de ter influenciado negócios entre essas duas companhias, mas diz que frequentemente apresenta partes interessadas em fazer alguma transação.

No início do ano, um caso de compartilhamento causou desconforto entre acionistas minoritários da Petrobrás. Eles tentaram eleger dois novos conselheiros alegando que não se sentiam representados pelos atuais. Jorge Gerdau Johannpeter, da Gerdau, era um deles. Os acionistas alegaram que ele, além de ter ligações com o governo (que controla a estatal) é fornecedor da Petrobrás. Na queda de braço, os minoritários perderam.

Para evitar possíveis conflitos de interesse, os conselheiros são obrigados a informar à empresa e à CVM sobre todas as companhias a que estão conectados. "Quando o assunto, na reunião, diz respeito a uma das empresas com as quais tenho ligação me abstenho de participar das discussões e deixo a sala", diz Álvaro de Souza, conselheiro na Gol e na Ambev.

Mas o perigo, segundo o professor Mendes-da-Silva, nem sempre está na sala de reuniões. "O fluxo de informações não para", diz. "Nem na hora do cafezinho."

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