Mais mercados para a indústria crescer

A indústria brasileira está numa encruzilhada. De um lado, sabe que precisa, com o apoio do governo federal, vencer o desafio do investimento na educação e o da redução do custo Brasil para ampliar sua produtividade e inovação e, com isso, ganhar competitividade para crescer. De outro, tem consciência de que não pode esperar a solução definitiva desses problemas para disputar novos mercados, pois seus concorrentes continuam a avançar.

ROBSON BRAGA DE ANDRADE, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2015 | 02h04

O mercado nacional já não é mais suficiente, seja porque a concorrência externa tomou parte significativa dele, seja porque os próximos dois anos serão de ajustes e de desaquecimento na economia. Dessa forma, está claro para a indústria que é preciso buscar mais espaços fora do Brasil.

Os brasileiros representam menos de 2% de todos os consumidores mundiais. Há um vasto leque de possibilidades que a indústria pode explorar no exterior. Para isso, ela precisa do apoio da administração pública para adotar e executar uma estratégia ambiciosa de acesso aos mercados externos.

Esse plano deve se desdobrar em duas linhas de ação. A primeira é a da negociação de acordos internacionais. O País precisa abrir novas frentes com seus principais parceiros comerciais e de investimento, incluindo as maiores economias desenvolvidas (EUA, Japão e União Europeia) e outros mercados relevantes, como o latino-americano, o africano, o canadense e o indiano. Além disso, precisamos de acordos abrangentes, incluindo a liberalização do comércio de bens e serviços, a cooperação e a facilitação dos investimentos e a eliminação da dupla tributação e de vistos de negócios e de turismo.

Por fim, o País não deve fazer restrições quanto ao método, ou seja, deve buscar acordos multilaterais, no âmbito da Organização Mundial do Comércio; plurilaterais, com grupos de países com interesses comuns; e bilaterais. Essas tratativas têm de ocorrer de forma simultânea, para que o Brasil estimule seus parceiros a fazerem, nas mesas de negociação, as melhores ofertas.

A segunda linha de ação é a da eliminação de barreiras às exportações e aos investimentos. Diferentemente da negociação dos acordos internacionais, que levam alguns anos e dependem da boa vontade dos parceiros, a identificação e a remoção das barreiras requerem, em boa medida, ações nossas. Por essa razão, a indústria defende que o governo federal adote os instrumentos necessários para que o País realize o "ataque comercial", isto é, a abertura pontual de mercados por meio da eliminação de barreiras.

Nos últimos quatro anos, o governo conduziu um amplo e necessário reforço dos instrumentos de defesa comercial, para permitir à indústria combater o comércio desleal e ilegal no mercado brasileiro. Agora, é necessário assegurar os instrumentos do ataque comercial, para lutar contra as barreiras desleais e ilegais às exportações e aos investimentos no exterior.

Em 2014, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) conduziu, em parceria com o escritório americano Steptoe & Johnson, um levantamento inédito sobre as políticas de ataque comercial nas principais economias. Coreia do Sul, EUA, Japão e União Europeia já possuem tais instrumentos e os têm utilizado contra o Brasil. Nesse contexto, o País tem a oportunidade única de ser o pioneiro entre as grandes economias emergentes.

A nova política brasileira deve incluir duas medidas principais: a criação, pela administração pública em parceria com o setor privado, de um sistema digital de identificação, catalogação e monitoramento de barreiras a exportações e a investimentos. Também devemos estabelecer um processo administrativo, similar aos da defesa comercial, pelo qual a indústria possa pedir que o governo investigue uma barreira considerada desleal ou ilegal.

As duas linhas de ação propostas têm impacto financeiro mínimo, mas oferecem grande potencial de ganho. A hora é de trabalharmos de modo a garantir mais mercados para estimular a competitividade da indústria e fazer a economia brasileira crescer com mais vigor.

*É EMPRESÁRIO E PRESIDENTE DA CNI

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