Mais milho é mais riqueza para o Brasil

Cesario Ramalho da Silva, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2015 | 02h03

Aumentar a produção do grão - principal insumo da indústria de carnes - é estratégico para a expansão competitiva do agronegócio. Transformar commodities em alimentos prontos, agregando valor à produção, é o grande desafio que se coloca à frente do agronegócio brasileiro. Somos líderes em produção e exportação de muitas matérias-primas, mas patinamos no comércio de produtos beneficiados, que têm projeção de demanda crescente.

Pela tecnologia, eficiência e competitividade que temos na atividade agropecuária, nossos produtos precisam conquistar mais o cliente final, e não só o importador de commodity. Só que este avanço exige quebra de modelos, a começar por muito planejamento, abertura de mercados, investimentos em inovação, qualidade e marketing, em um esforço combinado de inteligência comercial por parte da diplomacia estatal e do setor privado.

A exportação de uma tonelada de grãos gira em torno de US$ 430, já o embarque do mesmo volume de carnes supera US$ 1,7 mil, o que, por si só, demonstra onde devemos investir. A FAO/OCDE prevê que, até 2022, o consumo mundial de carnes cresça em 13% para a suína, 14% para a bovina e 19% para a de frango.

Na busca por exportar melhor para mais e sofisticados mercados, aumentar a produção interna de milho é estratégico, já que o grão é o principal insumo da agroindústria de proteína animal, sejam carnes, lácteos, ovos, etc.

De acordo com o estudo inédito Diagnóstico dos problemas e potencialidades da cadeia produtiva do milho no Brasil, elaborado pela Abramilho, em parceria com a Embrapa e a Fundação Dom Cabral, tendo como coordenador o ex-ministro da Agricultura Alysson Paulinelli, o planeta deve demandar 386 milhões de toneladas adicionais de milho em 2020 em relação à produção de 2010 - aumento de 46%.

O Brasil poderá ter participação significativa neste crescimento da oferta global de milho, saltando de uma safra atual situada na casa dos 80 milhões de toneladas de grãos para um volume próximo a 200 milhões.

Além do apetite global maior por carnes - e consequentemente por milho transformado em proteína animal -, estima-se, também, aumento do comércio internacional do próprio grão.

Sem contar o incremento na demanda por milho, em razão do seu uso crescente para produção de biocombustíveis - entre eles o etanol, que, por sua vez, rende um substrato de elevado valor proteico, chamado DDG (grãos secos por destilação, na sigla em inglês), destinado à nutrição animal, amplamente produzido, consumido e exportado pelos Estados Unidos para países como Canadá, México e China.

O Brasil tem a oportunidade de angariar uma grande fatia desse novo mercado internacional, no qual o milho será protagonista, mas terá de investir pesado no aumento do cultivo do grão, com a biotecnologia sendo cada vez mais uma aliada imprescindível.

E os caminhos, conforme o trabalho da Abramilho, são basicamente cinco: expansão em novas áreas, ampliação da segunda safra, incorporação de pastagens degradadas para o cultivo, integração-lavoura-pecuária-floresta e avanço de produtividade, ainda heterogênea e inferior às obtidas por nossos principais concorrentes

Mas a concretização de todas essas estimativas requer políticas públicas que garantam condições para o aumento da produção de milho, o estímulo ao seu uso para a fabricação de biocombustíveis, assim como o abastecimento eficiente do segmento de carnes, além da manutenção e conquistas de mercados.

Desta forma, a busca por soluções para gargalos relacionados à infraestrutura logística, irrigação, pesquisa, assistência técnica e extensão rural, política de renda (crédito, preços mínimos e seguro), além de um quadro regulatório que ofereça segurança jurídica e previsibilidade aos negócios, entre outros entraves, deve ser prioridade nas tomadas de decisão da administração federal.

* Cesario Ramalho da Silva é diretor da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho)

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