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Mais pedras no caminho

Crises no front político podem comprometer foco total na economia

Cida Damasco, Impresso

23 de janeiro de 2017 | 05h00

Até poucos dias atrás, no “longínquo” 2016, todos os sinais emitidos sobre o novo ano do governo Temer convergiam para o seguinte rumo: foco total na economia. Pôr em prática a PEC do gasto público, iniciar as negociações da reforma da Previdência, dar partida à reforma trabalhista e, ao mesmo tempo, tentar reanimar a atividade econômica, que continua respirando por aparelhos. Até a sempre lembrada e sempre polêmica reforma tributária entrou na lista de intenções do presidente, citada por seus representantes no encontro de Davos. Nesse cenário, o “senão” esperado – e que senão! – era o impacto, ainda difícil de ser dimensionado, das delações da Odebrecht e do recall das delações de outras empreiteiras, que ameaçavam trazer a Lava Jato para dentro do Palácio do Planalto e aumentar as turbulências no Congresso.

O começo de 2017, porém, supera o roteiro de qualquer “filme catástrofe” e põe pelo menos mais duas pedras no caminho da estratégia do governo Temer. A interminável guerra de facções em penitenciárias no Norte/Nordeste expõe o tamanho e a profundidade da crise prisional no País. E força o governo a tirar da gaveta planos de segurança centrados na construção de presídios e em investimentos em inteligência – que, factíveis ou não, eficientes ou não, certamente desembocarão em aumento de gastos. Só a construção de cinco presídios federais exigirá recursos superiores a R$ 200 milhões, neste ano, sem contar as 25 unidades estaduais incluídas no programa e até agora sem verba garantida.

Para completar, a Lava Jato amplia a dominância da cena política, com a morte trágica do ministro Teori Zavascki, e os intrincados caminhos para a escolha do seu sucessor no Supremo Tribunal Federal e na relatoria do caso – decisões que estão nas mãos de Temer e da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, e têm potencial para definir o futuro da própria operação. Porém, seja qual for a solução encontrada e seja qual for o desenrolar das investigações sobre a queda do avião, não dispensarão um período de conjecturas e incertezas envolvendo os três Poderes.

E a economia? Em tese, as dificuldades continuam as mesmas. Não aumentaram nem diminuíram um milímetro sequer – embora, como se sabe, estão bem longe de ser desprezíveis. O roteiro a ser seguido para enfrentá-las é que parece mais complicado, num momento como esse, com o governo obrigado a entrar de cabeça em várias batalhas inesperadas.

É verdade que nos oito meses da administração Temer, a equipe econômica conseguiu se colocar à margem das sucessivas crises semeadas no campo político, que chegaram a desfalcar o Planalto de seis ministros. O notório apoio do mercado financeiro e dos empresários ao time comandado por Henrique Meirelles e à sua política econômica foi crucial inclusive para garantir uma certo período de “carência” ao governo Temer, até que as coisas começassem a se organizar e a andar. As reações que começavam a aparecer pela demora no encaminhamento das propostas de reformas constitucionais – itens prioritários da “campanha” de Temer junto a esse eleitorado – foram sensivelmente reduzidas com a aprovação da PEC do teto de gastos públicos e com a apresentação da reforma da Previdência.

Mas a impaciência agora é de outra ordem e com alcance bem mais amplo. Ou seja, é com a lentidão na retomada do crescimento e nos seus efeitos sobre o mercado de trabalho – só no ano passado foram eliminados 1,32 milhão de empregos com carteira assinada em todo o País, o segundo pior resultado desde 2002. Indicadores que batem direto nos interesses dos cidadãos e vitaminam a impopularidade de Temer.

Porém, se os novos obstáculos surgidos no front político têm o risco de comprometer o ritmo da programação econômica do governo e “indispor” Temer com parcelas substanciais da população, o oposto também é verdadeiro. Caso a atividade econômica finalmente dê mostras de alguma reação, poderá pelo menos contrabalançar os transtornos na área política nessa travessia de 2017. Até a chegada de 2018, ano que será totalmente consagrado ao calendário eleitoral.

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