Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Mais pobres dependem mais de aposentados

Número de lares ‘superdependentes’ da aposentadoria cresceu 22% na classe E

Márcia De Chiara, Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

15 de julho de 2018 | 05h00

A superdependência de pensões e aposentadorias cresce mais entre os mais pobres. De 2016 para 2017, o número de domicílios em que esses benefícios respondem por mais de 75% da renda avançou 22%, para quase 942 mil residências, entre as famílias da classe E, que ganham até R$ 625 por mês. Considerando todas as classes, a alta foi de 12%. 

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Esse aumento é maior para os mais pobres porque nesse grupo o desemprego e a informalidade também são maiores. E, normalmente, a renda com atividades informais é inferior a um salário mínimo, que é o parâmetro das aposentadorias e pensões. O metalúrgico aposentado Antonio Alves de Souza, por exemplo, que ajuda os três filhos desempregados, diz que a esposa faz bicos como faxineira. Antes da crise, ela chegava a ganhar cerca de R$1 mil por mês e hoje consegue tirar pouco mais de R$ 200. Isso fez crescer o peso da sua aposentadoria na renda da família.

A maior dependência do orçamento familiar das aposentadorias e pensões é confirmada pela pesquisa da consultoria Kantar Worldpanel, que visita 11,3 mil domicílios para saber de onde vem a renda que o brasileiro gasta com despesas básicas. Em 2014, as aposentadorias e pensões respondiam 17,8% da renda familiar e o salário por 62,8%. 

No ano passado, a parcela das aposentadorias e pensões tinha subido para 21,1% enquanto a da renda de salário, recuado para 57%. “A fatia do salário na renda diminuiu ao longo da crise por causa do desemprego”, diz Maria Andréa Ferreira Murat, diretora da consultoria. 

Nas casas em que há superdependência da renda dos aposentados, a taxa de desemprego é quatro vezes maior que a média nacional, segundo dados da LCA Consultores com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-Contínua), do IBGE. Em 2017, a taxa de desemprego dessa população estava em 52,3%, ante 12,6%, que é a média do País. Também o número de desempregados que vivem nessas residências é quase o dobro da média nacional.

“Se o filho ou o neto perde o emprego, o idoso se sente na obrigação de abrir os braços e acolher”, diz o médico e especialista em longevidade, Alexandre Kalache. “Quando ele pensa que vai aproveitar a vida, o ninho volta a ficar cheio de novo.” 

Para Verônica e Miguel Victolo, de 94 e 92 anos, ter a filha única em casa novamente, mesmo que sem renda, não tem sido um problema. Carmem Victolo, de 58 anos, mora com os pais desde que se separou do marido e está desempregada há quatro anos. “Ela é o nosso anjo da guarda”, diz a mãe, que ganhou uma parceira para assistir a novelas. O pai também não se importa. “Minha obrigação de pai é cuidar dela. Vou sustentá-la até o fim da minha vida.”

Boa parte da renda mensal da família, de R$ 4,5 mil, é consumida pelo condomínio e pelos remédios do casal. Carmen usa com cautela o dinheiro da rescisão para pagar o carnê do INSS e garantir a aposentadoria. Ela tem procurado emprego nos últimos anos, mas as propostas que aparecem não correspondem ao seu perfil profissional ou não são suficientes para pagar um funcionário que pudesse cuidar dos pais. “Acreditava que voltaria logo ao trabalho, mas cada vez mais pessoas estavam sem emprego”, diz. Carmen tem duas graduações, em Rádio e TV e em Marketing, além de uma pós-graduação em Orçamento Público. 

Na avaliação do economista Cosmo Donato, da LCA, o número de lares cuja renda é superdependente de aposentadorias e pensões deve continuar crescendo enquanto o desemprego se mantiver em níveis elevados e as vagas de trabalho abertas forem informais.

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