Mais pobres que os pais

Estudo constata inédita regressão permanente de renda em países desenvolvidos

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2016 | 05h00

Os mercados, recentemente, saudaram a disposição do Banco da Inglaterra de cortar juros e injetar mais liquidez na praça, como têm feito toda vez que algum banco central de país desenvolvido dobra a aposta neste caminho. Parece ser o que restou para relançar as economias maduras depois do crash de 2008, agora com a emblemática disseminação dos juros negativos. Mas, até aqui, os resultados têm sido no mínimo dúbios e, numa visão bem otimista, no máximo sofríveis.

Do ponto de vista social, as repercussões das atribulações dos últimos oito anos, desaguadouro de um tipo de política econômica que levou a uma talvez excessiva financeirização da economia global e esta a um excesso improdutivo de liquidez, são mais nítidas. As perspectivas de emprego e inclusão se tornaram mais incertas, ao mesmo tempo em que as desigualdades de renda se acentuaram. Movimentos nacionalistas e de restrição à imigração, que ganham espaço no momento, são corolários políticos dessa situação.

Riscos de que se consolidem as atuais tendências de retrocesso no bem-estar das famílias são cada vez mais evidentes. Se, nos últimos dez anos, dois em cada três segmentos de renda familiar, nas economias avançadas, experimentaram, em média, estagnação ou regressão nos rendimentos domiciliares, é alta a possibilidade de que o fenômeno se repita nos próximos dez anos, se a economia continuar crescendo pouco.

Em grande parte do mundo desenvolvido, entre 2005 e 2014, filhos ficaram mais pobres do que os pais e o fenômeno, inédito desde o pós-guerra, atingiu de 540 milhões a 580 milhões de indivíduos, em 25 países, de acordo com estudo recém-lançado pelo McKinsey Global Institute (MGI), braço de pesquisas e estudos econômicos e financeiros da consultoria global McKinsey (http://bit.ly/2b93qfL). Algo muito diferente do que ocorreu entre 1993 e 2005, quando apenas 2% das famílias, – menos de 10 milhões de pessoas –, no mesmo universo, enfrentavam esse tipo de situação.

A forte recessão pós-2008 e a lenta recuperação econômica desde então são os principais responsáveis primários pela alta taxa de famílias que experimentam regressão de rendimentos. Mas mudanças no mercado de trabalho, que produziram contração na participação dos salários no PIB, e tendências demográficas de longo prazo, com destaque para o envelhecimento da população, também têm papel relevante na configuração do indesejado quadro.

Políticas públicas, com cortes de tributos e programas de transferência de renda, assim como intervenções no mercado de trabalho com o objetivo de preservar empregos, de acordo com o apurado pelo estudo do MGI, contribuem para limitar a extensão dos problemas. Na Suécia, por exemplo, nos últimos dez anos, só 20% das famílias foram afetadas por perdas permanentes de renda e, quando se toma como base a renda disponível depois dos impostos, algum avanço relativo nos rendimentos é quase generalizado. Também nos Estados Unidos, os programas de tributação e transferências ajudaram a reverter a estagnação de rendimentos que estaria presente em 80% dos segmentos de renda.

Para evitar que a tendência anômala de contração dos rendimentos e do bem-estar ao longo de gerações se torne sistêmica, o estudo ressalta que governos e lideranças empresariais podem desempenhar papel relevante no debate do problema e no encontro de soluções. É incontornável, para tanto, que a economia cresça de modo consistente, o que requer aumento de produtividade, com a habilitação da mão de obra para empregos que paguem salários melhores.

São esforços economicamente mais complexos, mas, ao mesmo tempo, com maior potencial de alcançar resultados positivos – aliviando pressões sociais e políticas – do que os até aqui oferecidos pelos programas de afrouxamento monetário nos quais países desenvolvidos têm se concentrado.

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