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'Mais que palavras'

Enquanto Bolsonaro for na direção contrária dos governadores, esforços estarão sendo desperdiçados

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2020 | 04h00

Esse é o título em português de um artigo em fase de elaboração que começou a circular na última semana nos grupos de economistas brasileiros (More than Words: Leaders’ Speech and Risky Behavior During a Pandemic). Nele, dois economistas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Nicolas Ajzenman e Daniel da Mata, além de Tiago Cavalcanti, da Universidade de Cambridge, analisam o impacto das palavras e ações do líder político de uma nação sobre o comportamento das pessoas. 

Os autores buscam responder a essa questão dentro do contexto brasileiro atual. Com base em uma análise que combina informações eleitorais com dados de telefones celulares, os autores concluem que houve uma redução do isolamento social nas localidades onde a presença de cidadãos pró-governo é mais relevante, relativamente às localidades onde o apoio é menor, após as manifestações do presidente Jair Bolsonaro minimizando publicamente os riscos da pandemia da covid-19 no Brasil. Ou seja, os resultados do trabalho sugerem que as palavras e ações do presidente da República têm impacto negativo no nível de obediência dos seus apoiadores às medidas de isolamento social. 

Vale lembrar que na ausência de uma vacina ou de um medicamento, o isolamento social é a única medida comprovadamente eficaz para conter a disseminação da pandemia. Essa disseminação é determinada pela taxa de contágio que, por sua vez, está vinculada ao número de contatos que uma pessoa contaminada venha a ter e portanto à sua capacidade de passar o vírus adiante. Em particular, pessoas que estejam contaminadas e não apresentem sintomas são aquelas com maior potencial de contaminação.

Ao mesmo tempo que reduz a taxa de propagação do vírus, o isolamento social (obrigatório ou voluntário) também reduz a atividade econômica. Nesse contexto, além da proibição legal de funcionamento de algumas atividades, questões comportamentais também se impõem pelo receio da contaminação, nesse caso reforçando os impactos do isolamento sobre a curva de contaminação, mas também alavancando os efeitos sobre a atividade. O resultado dessa combinação é, por um lado, o desejável achatamento da curva e, por outro, os choques de oferta e de demanda que estamos observando no Brasil e no mundo. 

Isso se reflete nos indicadores econômicos: pedidos recordes de seguro-desemprego nos Estados Unidos, que superaram os 33 milhões em abril ou quedas significativas no PIB dos diversos países afetados, como os 6,8% de contração do primeiro trimestre na China. Junte-se a isso os pedidos de recuperação judicial de empresas afetadas diretamente pela pandemia e uma perspectiva sombria para o mercado de crédito de varejo nos próximos meses e temos alguns exemplos dos impactos da crise de saúde na economia real.

Não há quem esteja insensível a esses números. O grande desafio está, contudo, na compatibilização dessa preocupação com a necessidade de se garantir que a contaminação não vai superar a capacidade instalada de atendimento de saúde. Infelizmente, não será impossível evitar que muitas mortes ocorram. Mas é sim possível reduzir os número delas desde que haja atendimento adequado e tempestivo. Essa é a restrição que precisa ser considerada e que condiciona todas as outras ações.

A decisão de quando e como flexibilizar depende, portanto, desse delicado equilíbrio entre o formato da curva de contaminação, a capacidade hospitalar – em particular de leitos de UTIs – e uma retomada organizada e gradual das atividades. Nessa última parte, o foco especial em setores mais afetados pela crise e com maior potencial de geração de emprego e informalidade pode ajudar a organizar a retomada. Aqui, a definição de protocolos de saúde que visem à redução dos riscos de contaminação é fundamental.

Adicionalmente, o Brasil precisa ampliar substancialmente sua capacidade de testagem. Atividade que dependerá de pactuação com o setor privado, cuja capacidade de execução é a única forma de garantir a necessária velocidade. Nessa equação com tantas variáveis, o esforço conjunto é o que fará a diferença.

Mas enquanto o presidente da República for na direção contrária das ações de conscientização e planejamento de governadores como João Dória, em São Paulo, ou Eduardo Leite, no Rio Grande do Sul, esforços estarão sendo desperdiçados.

Como mostra o estudo dos meus colegas economistas, as palavras do presidente não têm se perdido no tempo. Ao contrário, elas têm contribuído para atrasar o controle da curva de contaminação e, portanto, da possibilidade de retomada das atividades. Ou seja, ao contrário do que querem dizer as palavras de ordem dos seus apoiadores, o principal responsável pelo atraso na retomada da atividade econômica é o presidente da República.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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