Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Mais que um fazendão
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Mais que um fazendão

Embora a agropecuária brasileira esteja vivendo um bom momento, o Brasil perde enormes oportunidades de desenvolvimento, criação de renda e aumento de empregos por erros em outros setores

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2021 | 19h46

Tem gente que olha para o sucesso do agronegócio, sacode a cabeça e logo sentencia: “Estão transformando o Brasil num fazendão...”.

Por trás de observações desse tipo há, quase sempre, três pressupostos enganosos. O primeiro deles é o de que, se é forte na exportação de produtos primários, um país fica necessariamente sujeito a perdas irreparáveis nas relações de trocas – uma proposição que se arraigou no Brasil ao longo da segunda metade do século passado. Se essa afirmação fosse correta, o maior produtor agrícola do mundo, os Estados Unidos, estaria na pior.

Outro pressuposto é o de que o único setor que garante desenvolvimento, emprego e progresso é a indústria de transformação. O Brasil vem tentando desenvolver sua indústria dentro do marco da política de substituição de importações e, no entanto, até agora, com as exceções de praxe, não conseguiu ser competitivo. E, do ponto de vista tecnológico, está atrasado. A afirmação de sempre que nada há de errado do portão da fábrica para dentro e que o problema se resume no custo Brasil é apenas uma meia-verdade.

O principal problema aí foi o excesso de proteção em subsídios e outras renúncias fiscais, tarifas alfandegárias altas demais, reservas de mercado e exigências de cumprimento de índices de conteúdo nacional por tempo longo demais. Por um certo período é mesmo necessário apoiar mudas de árvores com uma ou várias estacas, mas chega o momento em que a amarração é inútil ou só atrapalha. Depois de 60 anos com esse tratamento, a indústria de transformação do Brasil permanece pouco competitiva e vai se desidratando. Correspondia em 1985 a 36% do Produto Interno Bruto (PIB) e agora não é mais do que 11,3%.

Hoje, o Brasil é mais de 70% setor de serviços e nisso não vai nenhuma desqualificação (veja o gráfico). Pertencem ao setor de serviços: comércio, transportes, finanças, saúde, educação e turismo. Cada vez mais subsetores da própria indústria são serviços. Desenvolvimento de novos produtos, montagem, pintura, prestação de assistência técnica são serviços.

 

Outro pressuposto que pode levar a equívocos é o de que é preciso sempre garantir a maior adição de valor ao produto. Não há adição maior de valor do que o da produção de produtos primários. Minério de ferro debaixo da terra vale uma insignificância. 

Quando tirado de lá, pode valer mais do que US$ 200 por tonelada, como acontece agora. Uma saca de sementes de soja, três meses depois, pode se multiplicar em várias centenas de quilos de produto. Se o princípio de que é sempre melhor adicionar valor fosse sempre correto, a Vale teria preferido produzir aço. Quando ficou diante dessa escolha, rejeitou-a sumariamente. Agregar valor é uma coisa boa. Mas gastar capital precioso para agregar mais algum valor quando se pode obter mais resultados com o produto primário é má escolha.

Outra ideia despropositada é a de que a produção agrícola e a pecuária são atividades atrasadas. É ignorar o avanço tecnológico do setor, que começa com o preparo da terra, passa à utilização de sementes selecionadas, à adubação correta, à colheita mecanizada, ao armazenamento avançado e ao transporte de custo mais baixo e mais veloz. Hoje, há mais tecnologia embutida numa tonelada de soja do que numa tonelada de aço-carbono.

O Brasil perde enormes oportunidades de desenvolvimento, criação de renda e aumento de empregos porque faz tudo ou quase tudo errado. O excesso de proteção da indústria um desses erros. Outro, a falta de integração na cadeia global de suprimentos e distribuição. Outro, ainda, o atraso tecnológico, especialmente agora que vem a Indústria 4.0. Imagine o quanto o País não poderia ganhar com o desenvolvimento do turismo, se não fosse a brutal falta de segurança aos viajantes, o desmatamento ilegal furioso e a falta de infraestrutura.

No pé em que vão as coisas, o Brasil está deixando escapar oportunidades. As próximas gerações terão uma enormidade a cobrar das atuais.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.