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Mais tequila, menos cachaça

O presidente mexicano adotou uma disciplina fiscal e monetária

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2019 | 04h00

Após as eleições presidenciais de 2018 no México e no Brasil, os investidores tinham visões completamente opostas sobre o futuro dos dois países sob os governos de Andrés Manuel Lopez Obrador e de Jair Bolsonaro.

O sentimento era de que, enquanto o México rumaria ao “armagedom”, com um colapso social e econômico, ao eleger o primeiro presidente de esquerda em mais de 70 anos, o Brasil embarcaria num ciclo de reformas e de forte crescimento com a agenda liberal econômica de Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes.

Obrador tomou posse em 1º de dezembro. Bolsonaro, um mês depois. Ao completarem 100 dias de governo, a avaliação dos dois presidentes não podia ser mais distinta, tanto pela população quanto pelos investidores estrangeiros. O índice de aprovação de Obrador chegou a superar o patamar de 80% em recentes pesquisas, enquanto a avaliação positiva de Bolsonaro caiu 15 pontos porcentuais desde a posse, para 34%.

“Antes da posse, havia um entusiasmo muito grande com o Brasil e o poder transformador da agenda liberal de Guedes, mas também alguma preocupação de governabilidade e a capacidade de Bolsonaro de implementar essa agenda”, explica o economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos. “No México, o sentimento era o contrário: havia um grande receio de que ocorresse uma transição para políticas extremamente heterodoxas e intervencionistas na economia, as quais pudessem por em risco a ortodoxia fiscal que caracterizou o México nos últimos cinco anos.”

Segundo Ramos, desde a posse de Bolsonaro os investidores estão mais realistas em relação à questão de governabilidade no Brasil, refletindo a difícil relação entre Executivo e Legislativo e também pela dificuldade de articulação política. Já Obrador, após iniciar seu mandato, mostrou um grande pragmatismo fiscal e monetário, surpreendendo os investidores.

Em relatório enviado a clientes, os economistas do banco JPMorgan também reforçam essa visão. “O sentimento do mercado em relação aos novos governos das duas maiores economias na América Latina começaram o ano em direções opostas: amplamente “bullish” (otimista, no jargão financeiro em inglês) para o Brasil e muito mais cético quanto ao México”, dizem.

Todavia, os analistas do JPMorgan destacam que, no Brasil, a incerteza política e os números decepcionantes da atividade econômica até o momento levaram a uma revisão da projeção de crescimento do PIB de 2019 de 2,1% para apenas 1,5%. “O aumento da incerteza política relacionada à reforma da Previdência seguirá afetando o sentimento dos empresários (particularmente no segundo trimestre) e o investimento”, afirmam.

Já em relação ao México, esses analistas dizem que, apesar de a confiança empresarial continuar moderada, os indicadores recentes da atividade econômica não tiveram um desempenho tão fraco como se temia, a exemplo dos sinais encorajadores do último número de produção industrial. A depender dos próximos dados, o JPMorgan diz que pode elevar sua projeção de crescimento do PIB neste ano, atualmente em 1,5%. “Tudo isso pode muito bem mudar o sentimento do mercado em direção ao México e longe do Brasil.”

Como o presidente mexicano conseguiu agradar igualmente a população e os investidores? No caso do mercado financeiro, Obrador adotou uma disciplina fiscal e monetária em linha com os últimos governos, tidos como liberais.

Ele não somente manteve o superávit primário de 1% do PIB no Orçamento de 2019, como elevou essa meta para 1,3% do PIB na proposta orçamentária de 2020. O Banco Central mexicano elevou, em dezembro, os juros básicos para 8,25% - maior nível em 10 anos. Por outro lado, logo após a posse, Obrador fez um afago à população: aumentou o valor do salário mínimo em 16%, maior elevação em 23 anos.

Até o fechamento desta segunda-feira, o dólar acumula, em 2019, perda de 4% ante o peso, mas um ganho de 1,7% ante o real. O Ibovespa acumula alta de 7,6% no ano, impulsionado pelos investidores brasileiros, enquanto a Bolsa mexicana subiu 8,98%.

Se o medo sobre os próximos anos do mandato de Obrador ainda não se dissipou totalmente entre os investidores, o otimismo observado em relação aos anos de Bolsonaro já não é mais o mesmo. Mas, diante do que aconteceu nos primeiros 100 dias de governo de cada um, na hora de alocar seus recursos, os investidores estão mais propensos à tequila do que à cachaça.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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