Dida Sampaio / Estadão
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Mais um ano de crescimento medíocre?

A frustração com o crescimento econômico do Brasil chegou mais rapidamente em 2019 e agora analistas reveem para baixo o desempenho da produção e da renda

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2019 | 20h00

Desde 2016, o ano começa com renovadas expectativas de forte crescimento econômico, sempre acima de 2,5% ao ano. À medida que os meses vão passando, os analistas se veem na obrigação de rever para baixo o desempenho da produção e da renda. Mas, desta vez, a frustração chegou mais rapidamente.

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O ano de 2019 começou com estimativas de avanço do PIB de 2,53%. Nem bem chegou o segundo trimestre e as novas projeções passaram por forte desidratação. O último Boletim Focus, do Banco Central, que semanalmente registra os prognósticos de 116 consultorias e grandes departamentos econômicos, aponta um crescimento da renda nacional de não mais que 1,95%. Mas alguns bancos derrubaram ainda mais suas expectativas, especialmente depois que o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (o IBC-Br), criado para antecipar a tendência da evolução do PIB, apontou queda de 0,73% no primeiro trimestre. O Itaú, por exemplo, passou a trabalhar com um avanço de apenas 1,3%. Agora, sobreveio a nova crise da Argentina, que ajudará a empurrar para baixo as exportações de manufaturados do Brasil e, portanto, mais um pedaço do nosso PIB.

Como sempre acontece diante de frustrações desse tipo, alguns analistas se apegam a diagnósticos simplistas e inconsequentes. Insistem que o câmbio não ajuda porque reflete excessiva valorização do real e que os juros altos demais desestimulam a tomada de crédito. Ou, então, que é preciso reforçar a proteção à indústria.

Não há lugar para ilusões. O câmbio tem de ser esse aí. Forçar uma desvalorização do real para dar mais competitividade ao produto nacional é apelar para artificialismos. Os juros são os mais baixos da história do Banco Central. Talvez possam cair mais, mas não vai ser essa maior disponibilidade de moeda que vai estimular o crédito. Há oferta de crédito mais do que suficiente para a demanda. O que não existe é capacidade de tomada de empréstimos. Empresas e famílias continuam excessivamente endividadas. Na última segunda-feira, o jornal Valor Econômico noticiou que os cinco maiores bancos retêm em carteira R$ 18,7 bilhões em bens retomados por inadimplência do tomador de empréstimos, especialmente para aquisição de imóveis, aumento de 78% em apenas dois anos.

E a indústria não tem como se queixar de falta de proteção. É contemplada por desonerações seguidas, emenda um refis no outro e assim vive de anistias fiscais. E, pelo menos até o momento, contou com o BNDES que proporciona créditos de pai para filho.

Não dá para desprezar a importância dos fatores secundários que produziram essa paradeira, nem os vaivéns condizentes com os ciclos econômicos. Mas é preciso ir mais fundo.

O Brasil é uma economia desarrumada não só porque ostenta um rombo assustador nas contas públicas, mas, também, porque depende de um setor produtivo pouco competitivo, de baixo conteúdo tecnológico e, além disso, excessivamente dependente de favores do governo e de uma política comercial protecionista. É o que explica o conhecido esvaziamento da indústria, que não consegue preço para exportar nem para mercados da América Latina.

Sempre se ouve que nem sempre foi assim. Nos anos 1970, o Brasil ficou conhecido como “milagre econômico” e, entre 2002 e 2008, o crescimento foi recorde. Mas esses foram períodos de exceção, graças à forte demanda mundial e à escalada de preços das matérias-primas, das quais o País se beneficiou. Hoje, a economia mundial, principalmente a europeia, está em desaceleração, há a já mencionada nova crise da Argentina e, além disso, governos antes envolvidos em propostas liberais partem para a retranca, como é o caso dos Estados Unidos e da Itália.

O momento pede um salto tecnológico, avanços na revolução digital, designs comandados por impressoras de três dimensões e uma indústria 4.0, áreas em que o Brasil está muito atrasado. No entanto, outra carência nacional, a mão de obra não está preparada para absorver atualização tecnológica e conhecimentos novos. As novas gerações não são suficientemente qualificadas para as funções que a nova era exige.

Infelizmente, fora das altamente promissoras áreas do petróleo e do agronegócio, o setor produtivo brasileiro não aponta para superação desse crescimento medíocre.

 

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