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Mais um aperto nos juros

Mesmo com a inflação se espalhando rapidamente em quase todos os setores da economia, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter o que já havia dito na última reunião e reduziu o ritmo de alta da Selic

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2022 | 19h59

O  Banco Central se conteve em aumentar os juros básicos (Selic) em apenas um ponto porcentual, de 10,75 % para 11,75% ao ano, apesar da nova disparada da inflação, que levou muitos analistas a apostar em aperto mais forte. São os juros mais altos desde fevereiro de 2017.


Preferiu se ater à indicação adiantada em fevereiro, bem antes do início da guerra entre Rússia e Ucrânia, que puxou para o alto os preços do petróleo, das matérias-primas e que recomeça a atrapalhar os fluxos de produção e distribuição. Em compensação, o Banco Central avisou que poderá aumentar mais na próxima reunião. 

A inflação é mundial e preponderantemente de custos. Não é provocada por aumento de emissões de moeda nem pelo aumento da demanda.

E é aqui que aparecem as mais importantes perguntas à espera de resposta. Se a inflação é de custos e, portanto, não é produzida por volume excessivo de dinheiro no mercado, por que o Banco Central insiste no aumento dos juros, ou seja, insiste na redução do volume de moeda, numa conjuntura em que a economia está nesse devagar quase parando, a taxa de desemprego é de 11,1% e o poder aquisitivo vem sendo ralado todos os dias?

É que a inflação está se espalhando muito rapidamente em quase todos os setores da economia, também por um movimento puramente defensivo. É o encanador ou o técnico de informática que reajustam os preços dos seus serviços “porque subiu a gasolina”. O dinheiro mais caro (em juros) tende a conter a velocidade dessas remarcações (inflação secundária). Mas leva tempo.

Outro efeito (também secundário) da alta dos juros acontece no câmbio. As aplicações financeiras no Brasil ficam mais atraentes, entra mais moeda estrangeira e as cotações do dólar tendem a cair ou a subir menos. O real mais valorizado em relação ao dólar ajuda a reduzir os preços dos importados, a começar pelos do petróleo, e a segurar a inflação.

A decisão tomada nesta quarta-feira pelo Copom coincide com o início do processo de aperto monetário da principal economia do mundo. Depois de quatro anos, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) aumentou os juros básicos (Fed funds) em 0,25 ponto porcentual, para a faixa entre 0,25% e 0,50% ao ano, e prometeu mais seis altas seguidas. Não chega a atrapalhar a migração de dólares para o Brasil, porque os juros vêm subindo bem mais rapidamente por aqui. Mas é um processo que deve aumentar  a transferência das aplicações de capital em renda variável para a renda fixa. Esse movimento talvez não aconteça imediatamente porque há outras coisas graves acontecendo, como a guerra da Ucrânia e um novo avanço da covid-19 na China.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

 

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