Mais um foge do Fisco francês

Gérard Depardieu, 64 anos, é o maior ator francês. Na semana passada, ele anunciou que deixava a França para se estabelec er no país vizinho, a Bélgica. Por quê? Porque a França socialista de François Hollande "não gosta dos ricos", os esmaga com impostos, taxa em 75% as rendas acima de 1 milhão. Depardieu teve um acesso de cólera. Ele vai deixar Paris e vai se instalar na Bélgica, exatamente sobre a fronteira franco-belga, e adeus! A notícia deixou a França estupefata. O governo reagiu sem fineza nem moderação. A matilha dos ministros socialistas saiu no encalço do "saltimbanco", do "comediante", mordiscando suas pernas de tudo quanto foi jeito. O primeiro-ministro Jean-Marc Eyrault disse que Depardieu é "lastimável". Esse adjetivo não agradou Depardieu que publicou num grande jornal uma carta a Jean-Marc Eyrault: "Lamentável? Você disse lastimável? Como é lastimável!" E no seu furor, anunciou que a França estava acabada para ele. Depardieu vai devolver seu passaporte francês.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2012 | 02h09

Vai pedir a nacionalidade belga, um passaporte belga.

Assim, a França está às voltas com uma nova "guerra civil" (uma de suas especialidades históricas e mesmo uma de suas guloseimas). Em setembro, Bernard Arnault, dono da Louis Vuitton, também pediu cidadania à Bélgica para fugir dos altos impostos franceses.

Embora as fortunas francesas muito grandes tenham migrado para Suíça, Bélgica ou para pequenos paraísos fiscais sem provocar grandes tempestade, a saída de Depardieu provocou um tsunami. Todo o mundo o conhece e o admira. Ele filmou com os maiores, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Bernardo Bertolucci, Marguerite Duras, etc. É capaz de fazer qualquer papel - o proletário ou o mítico, o grande policial, o gângster absoluto, o homem do mundo, o dândi... Ele pôde até ler, magnificamente, e com rara inteligência, em Notre Dame de Paris, as confissões de Santo Agostinho, o que não o impediu de interpretar o enorme, o monumental Obelix na série de Asterix.

Depardieu é um comediante, um saltimbanco. Ele põe em cena seus desentendimentos com o Fisco. Faz deles um drama, uma tragédia, uma ópera. Enquanto um burguês também refugiado para fugir dos impostos na Bélgica se cola nos muros, parece se desculpar, tem vergonha e estremece em seus trajes bem cortados, Depardieu, vestido de maneira bizarra, gordo, genial e monstruoso, vulgar e distinto, faz de seus dissabores um grande espetáculo com efeitos especiais . Ele estrondeia e ruge, ele grunhe, fica vermelho de indignação, rosna, ameaça, resfolega.

Paris conhece bem esse personagem, Depardieu possui no bairro a um só tempo luxuoso e intelectual de Saint-Germain-des-Prés, um hotel particular de 1.500 metros quadrados, atopetado de luxo, que pôs à venda por 50 milhões. Nesse mesmo bairro, Rue du Cherche-Midi, ele possui várias lojas, uma delas uma peixaria de luxo, e faz a graça de ele próprio vender o atum, o salmão ou o dourado aos domingos. Ao lado, há um restaurante que lhe pertence, mas ele tem outros bens por toda a França, em geral em torno do "comer", açougues, vinhedos, etc.

Sua saída da França terá também razões ideológicas? Seu coração certamente bate mais à direita, mas sem sectarismo já que ele foi um dos defensores mais resolutos do socialista François Mitterrand. Mais tarde, desenvolveu uma verdadeira amizade com Nicolas Sarkozy. Talvez porque Sarkozy não fazia muito mal aos ricos, mas, sobretudo, porque o sujeito o agradava, com sua vulgaridade, sua inteligência, sua bonomia.

Nas últimas eleições, ele apoiou Sarkozy: "Como é possível", disse ele num comício, "que se fale tão mal deste homem que só faz o bem?" Após Sarkozy, veio Hollande. Nada truculento esse Hollande! Bem asseado, bem criado, um ar de pequeno vendeiro de província. Para o ogro Depardieu, Hollande é uma abominação. Na sua peixaria, enquanto escamava seus linguados, ele não poupava Hollande, a quem só chamava de "porquinho". E assim é que o maior ator francês vai morar a alguns metros da fronteira francesa, mas do lado belga.

Um belo atoleiro! / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

E-mail: gilles.lapouge@wanadoo.fr

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