Marcelo Camargo/Agência Brasil - 19/7/2016
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Mais um recuo nos juros

A novidade não é a queda histórica da taxa Selic no Brasil, mas a queda da inflação para níveis inéditos no País

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 20h19

O mergulho continua. E pode prosseguir, conforme se depreende do comunicado do Copom emitido logo após a reunião desta quarta-feira, com importantes consequências para a economia e para a vida financeira das famílias. Veja o gráfico abaixo.

O Banco Central iniciou o atual ciclo de baixa dos juros básicos (Selic) em 31 de julho com um corte de meio ponto porcentual, para 6,0%, depois que se mantiveram estacionados nos 6,5% ao ano durante 16 meses. No final de julho, a expectativa era de que a inflação terminasse o ano ao redor dos 4,0% e que a Selic caísse para 5,5% ao ano, como mostrou a pesquisa Focus, do Banco Central. De lá para cá, nesses quesitos, as coisas mudaram para melhor. A inflação esperada para este ano passou a ser inferior a 3,5% e o mercado passou a apostar numa Selic de 5,0% ao ano.

O Banco Central tem de operar sua política monetária (política de juros) como o condutor de um automóvel. Tem de dar sinal de seta quando pretende entrar à direita ou à esquerda ou, então, sinalizar com o braço estendido quando tem de reduzir a velocidade. Se não houver nenhuma surpresa ruim, o Banco Central passou o recado de que pretende continuar a usar a tesoura, talvez mais moderadamente. A pergunta que o Banco Central ainda não está em condições de responder é até onde vai este ciclo de baixa. Uma das razões para o questionamento é a de que nunca os juros estiveram tão baixos no Brasil e não se sabe ainda qual é o volume de moeda que deve ser lançado na economia que não aumente a inflação nesse novo ambiente (juros neutros). 

A novidade principal não é a queda histórica dos juros no Brasil, mas a queda da inflação para níveis há muito não vistos por estas paragens. Uma das explicações recorrentes é a de que a recessão, o desemprego e a perda de renda estejam derrubando a demanda por mercadorias e serviços e, assim, achatando os preços. Essa é apenas meia verdade. Um dos fatores que mais vêm derrubando a inflação é o crescente emprego da automação, de tecnologia da informação e de tantos aplicativos acessíveis a qualquer um, reduzindo os custos da economia. É certo que o baixo poder aquisitivo da população e seu alto endividamento ajudam a conter a alta, mas também é verdade que a derrubada dos preços reduz a corrosão da renda. Também ajuda a baixíssima inflação das economias avançadas.

Entre as consequências de juros tão baixos para os padrões brasileiros está a queda ainda maior do desempenho das aplicações de renda fixa, especialmente dos fundos que cobram “taxas de administração” altas demais. Quando a inflação e os juros eram altos, até se justificava uma “taxa de administração” de 1,5% ao ano sobre o patrimônio. A esses níveis, trata-se de um confisco da renda do aplicador, especialmente quando se leva em conta que esses fundos não são complicados para gerenciar porque concentram suas posições em títulos do Tesouro que quase não exigem movimentação.

O baixo retorno das aplicações de renda fixa deve aumentar a demanda por aplicações em renda variável (sobretudo ações), especialmente se houver razoável recuperação da atividade econômica.

CONFIRA

» O Fed surpreende

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) reduziu em mais 0,25 ponto porcentual ao ano os juros básicos. Na entrevista concedida após a decisão, o presidente do Fed, Jerome Powell, explicou que não espera recessão, mas mostrou preocupação com a desaceleração da economia mundial. 

» Megainjeção de dólares

No entanto, o movimento mais surpreendente do Fed foi a decisão tomada no dia anterior de recomprar US$ 128 bilhões em títulos no mercado. Essa injeção de recursos no overnight (“mercado repo”), atendeu à repentina falta de recursos que havia puxado os juros de curto prazo para cerca de 5% ao ano.

» A vez da política fiscal

Não ficaram claros nem essa repentina necessidade de recursos nem por que o Fed não a previra. Powell disse apenas que, se for preciso, continuará a agir, mas que espera mais da política fiscal, ou seja, de aumento das despesas públicas para manter a economia flutuando.

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