Mais um refresco

O novo pacote anunciado ontem pelo governo, denominado PAC Equipamentos, pretende reativar o sistema produtivo com despesas de governo. É mais uma tentativa de estimular o crescimento do PIB, cada vez mais decepcionante, com uma política anticíclica, ou seja, na contramão da atual paradeira. Infelizmente, é uma dessas iniciativas das quais não se pode esperar grande resultado.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2012 | 03h10

O governo Dilma passou meses e meses avisando que, apesar de gravíssima, a crise global não teria grande impacto sobre a economia brasileira, dada a solidez dos seus fundamentos. No entanto, de algumas semanas para cá, a mesma crise internacional, especialmente a encalacrada do euro, passou a ser usada para justificar a incapacidade do governo Dilma de entregar o avanço do PIB, de pelo menos 4,5%, prometido ainda em 2011 e nos primeiros meses deste ano. Essa busca agora insistente de um culpado externo para o atual pibinho nacional é um fator negativo porque tende a minar a credibilidade do governo na condução da política econômica.

A crise mundial está sim atrapalhando o desempenho da economia brasileira, porém não dá para exagerar esse efeito. Não há, por exemplo, forte queda das exportações brasileiras. Apesar da desaceleração, as encomendas externas estão 1,3% mais baixas nestes seis primeiros meses do ano em relação ao mesmo período do ano anterior. É inegável que o ambiente de incertezas produziu redução dos investimentos por parte do setor privado. Mas esse ambiente de insegurança não se deve apenas à crise externa; deve-se, também, ao intervencionismo excessivo e errático do governo. Quando nada, o empresário mantém engavetados seus projetos de expansão aparentemente também porque fica à espera de mais benefícios fiscais e creditícios que a todo momento o governo parece disposto a dar.

Nas encomendas governamentais ontem anunciadas figuram caminhões, tratores, retroescavadeiras, ambulâncias, motocicletas para a polícia rodoviária, ônibus escolares e carteiras escolares. Compras ajudam, sim, a estimular certos segmentos do setor produtivo, desde que haja aumento significativo do dispêndio público. No entanto, este pacote não passa de uma "antecipação de compras", correspondente a R$ 8,4 bilhões, com baixo volume de verbas adicionais, quase uma insignificância quando o objetivo é garantir o crescimento do PIB de pelo menos 2,5% neste ano. E uma antecipação de compras significa, também, que não haverá as mesmas compras no agendamento anteriormente previsto. Este é mais um sinal de que o governo Dilma não dispõe de muita munição para promover a desejada arrancada. Se houvesse uma disparada do dispêndio público, teríamos outro problema grave, o da redução do superávit primário, a parcela da arrecadação destinada ao pagamento da dívida, prevista para ser de 3,1% do PIB (cerca de R$ 130 bilhões).

Ontem, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, reconheceu que o PAC Equipamentos terá um impacto no crescimento da indústria não superior a 0,12%. Levando-se em conta que a indústria não crescerá muito mais do que 2,0% neste ano, fica aí mais bem quantificado seu baixo potencial de retorno. Não passa de refresco. Nessas condições, iniciativas desse tipo cumprem mais a função de mostrar que o governo está fazendo alguma coisa do que de garantir eficácia para sua política.

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