Mais um semana além da crise

Espera-se uma semana com pouca incerteza. Nem mesmo a reunião do Fed (Federal Reserve, banco central americano), que sempre causava tanta expectativa, deve surpreender; nunca os diretores membros do comitê de mercado aberto, inclusive seu presidente, Ben Bernanke, falaram tanto à imprensa nesses últimos dias, indicando claramente uma redução da taxa básica de juro. Até quinta-feira, falava-se em 0,50 ponto porcentual, mas, após a divulgação de dados favoráveis no mercado de trabalho - em novembro, 94 mil novos empregos foram criados e houve aumento de 0,5% nos salários (agora de US$ 17,63 a hora) -, acreditava-se mais em 0,25 ponto de redução. Os níveis de emprego, 3,8% mais do que no mesmo período do ano passado, não estão pressionando a inflação. A não ser que alguma outra instituição financeira de porte venha a anunciar grandes perdas, o que parece pouco provável, pois o mercado está sendo agora muito vigiado e sob a mira do Fed e da Secretaria do Tesouro, podemos prever dias mais calmos até o fim do ano. Evidentemente, pode haver surpresa, mas esse é um risco bem menor do que havia há dois meses.É exagerado dizer que a crise passou, as ondas continuarão indo e vindo, até transformarem-se em marolas, mas não é nenhum otimismo leviano afirmar que o pior passou. As bolsas mundiais vão continuar movimentando-se em gangorra, mas terminarão o ano ou com lucro ou sem perdas maiores, aqui, em Wall Street ou em Londres.A DISTENSÃO DO PIOR PASSOUO cenário financeiro externo vive neste momento num clima de distensão, de semi-ressaca após sustos que levaram alguns mais nervosos a acreditar no pior. Nada disso aconteceu e os riscos que venham a ocorrer são cada vez menores. As economias americana e mundial resistem bem, o risco de recessão nos EUA está sendo afastado, embora haja uma retração já prevista antes da crise; retração que deve se prolongar até o segundo trimestre do próximo ano; o Produto Interno Bruto (PIB) mundial deve recuar apenas um pouco, mantendo-se, porém, próximo dos 5%.Esse é um excelente resultado. Mesmo que recue, ainda é bom porque vem aumentando muito nos últimos seis anos.BRASIL, MUDANÇA CAMBIAL No Brasil, poucas dúvidas relacionadas com a economia mundial nesta semana. Os pontos fracos - juro, câmbio - já pesaram o que tinham de pesar e, a não ser que o real se valorize ainda mais, o choque parece estar sendo absorvido. Tudo indica que o governo prepara medidas para conter a desvalorização do dólar, que pesa fortemente nas exportações; isso iria ocorrer até o fim do mês.Algo está para acontecer e, pelas sondagens feitas pela coluna junto aos setores industriais, os principais interessados, que têm estado em contato com o governo nesses últimos dias, há esperança de acertar.No fundo, o aumento dos preços das commodities agrícolas e minerais está compensando as perdas das exportações do setor industrial. Mas isso não vem compensando o aumento expressivo das importações, que estão pesando exatamente no setor mais frágil no contexto externo: a indústria, que gera empregos e renda. A questão é outra, não se trata, como muitos afirmam sem ir mais a fundo, apenas de exportar mais para gerar renda interna e divisas, mas exportar mais para poder importar mais, a preços menores (câmbio) num saudável equilíbrio da balança comercial. Não há nada de errado em importar muito, a não ser quando isso decorre de uma distorção cambial punitiva que prejudica a indústria e outros setores, mas sim de importar muito sem, em contrapartida, também exportar muito.IMPORTAR MAIS, EXPORTAR MAIS Esse é um desafio interno atual, pois nosso comércio exterior está crescendo de forma desequilibrada. Mas, como estamos à margem do turbilhão financeiro internacional e como a demanda interna cresceu com o aumento da renda e da massa salarial, acreditamos ainda que estamos vivendo acima do resto do mundo. Não. Nosso pulmão continua passando pelo comércio mundial e só ainda estamos bem, insisto, porque as commodities agrícolas e mundiais estão nos salvando. De acordo com levantamento semanal feita pela revista britânica The Economist, o índice dos produtos agrícolas se elevou 3,8% na semana e, atentem para isso, 30,8% em um ano, enquanto os índices da indústria recuaram 6,5% na semana e 0,4% no ano. Um caso que nos interessa: o dos metais, menos 9,1% na semana e menos 8,3% no ano. Ou seja, não será nem um pouco exagerar que o setor agrícola continue sustentando o nosso comércio exterior. Sei que isso não é novidade, mas se torna a cada dia mais importante, não pelo saudável crescimento da agricultura, mas pelo negativo e preocupante - muito preocupante - recuo da indústria. CHINA, SERÁ O JAPÃO?A China parece estar repetindo a bolha japonesa no fim da década de 80. Essa é a tese de Peter Tasker, diretor de uma empresa de investimento, no Japão. Em artigo na revista americana Newsweek, que está nas bancas, o executivo relembra que a bolsa chinesa nos últimos sete anos valorizou-se 800% (sim, oitocentos!) e que, no boom japonês, em 8 anos, até 1990, a bolsa de Tóquio também valorizou-se 700%. Assim como o Japão, a China e sua política monetária transformaram-se em refém das exportações. Mais ainda, o PIB japonês na década dobrou em sete anos e o da China entra no quarto ano acima de 9%. Grave? Hoje a economia mundial precisa mais da China do que precisava do Japão. Mas pode haver ainda mais alguns anos antes de algo acontecer. Os primeiros sinais virão quando a bolha da bolsa chinesa começar a esvaziar-se.... ou explodir...

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