Mais uma vez, política industrial sem critério

Eis o segredo do sucesso à brasileira: é só buscar uma oportunidade de fusão com algum competidor, ao mesmo tempo convencendo atores ligados direta ou indiretamente ao governo a injetar capital na operação. E tudo sob o argumento de que é preciso criar "campeões nacionais".

Sérgio Lazzarini, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

Assim foi com VCP-Aracruz, Oi-Brasil Telecom, Bertin-Friboi, Sadia-Perdigão e, agora, a fórmula se repete com a possível fusão entre a CBD (Pão de Açúcar) e as operações locais do Carrefour. Concentração de mercado irrigada por recursos do BNDES. Perfeito sob o ponto de vista das empresas. Mais um exemplo, contudo, de política industrial sem critério.

Primeiro, reduz-se ainda mais a competição. Juntos, CBD e Carrefour devem abocanhar 33% das vendas do setor - podendo esse número ser muito maior, dependendo da definição do mercado (por exemplo, bairros onde as duas redes competem). Em um país que quer desesperadamente controlar sua inflação, qual o sentido de reduzir ainda mais a competição empresarial?

Segundo, é uma operação que deve sofrer forte restrição do Cade - da mesma forma que ocorreu com Sadia-Perdigão. Por que um banco público deveria apoiar uma operação problemática em termos antitruste? Não seria preciso atentar para o bem-estar do consumidor?

Terceiro, as negociações carregam um complicado histórico de conflito entre a CBD e o grupo francês Casino. Por que um banco público deveria se envolver em uma operação que é, no mínimo, conturbada em termos societários?

Quarto, não parece haver sentido em criar mais um "campeão nacional". O "Novo Pão de Açúcar" dificilmente será uma empresa global relevante. Até o Carrefour e outros ícones do varejo ( Walmart) têm sofrido para consolidar sua posição global. Por que seria diferente?

Nada contra ações de política industrial. Mas é preciso que tais ações se direcionem a empreendedores que careçam de recursos e que elas não imponham custos aos consumidores. Com essa operação, o ensinamento aos nossos empresários é claro: a união faz a força, de preferência com uma ajudinha do governo.

É PROFESSOR DO INSPER E AUTOR DO LIVRO "CAPITALISMO DE LAÇOS"

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