'Maldição' atrapalha 'discípulo de Eike'

Empresário que se inspirou em Eike Batista diz que mau humor do mercado dificulta ida à Bolsa

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2013 | 02h02

RIO - Conhecido como o "Eike Batista do Sul", o empresário gaúcho Alexandre Souza Azambuja entrou ontem com seu sexto pedido no ano de aval na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para registro de companhia aberta. A companhia da vez do empresário, que desenhou um modelo de negócios que prevê a listagem de startups (empresas iniciantes) pré-operacionais na BM&FBovespa - daí a associação com o nome do bilionário Eike Batista - é a BR Night Entertainment S/A.

Apesar de não ter reduzido a quantidade de pedidos de registro mesmo em época de "vacas magras" no mercado acionário, ele comenta que o mau humor do mercado com as empresas X já dificulta a ida de projetos pré-operacionais à bolsa brasileira. Azambuja, CEO da Templars Trust (que deu origem a uma série de empresas pré-operacionais), atesta que a maré revolta o levou a alterar os planos para algumas das empresas sob o guarda-chuva da holding.

 

"Para nós é sempre ruim. Quando está dando certo, você não é bom como o Eike Batista. Quando ele vai mal, o mercado pensa: se até o Eike está dando errado, imagina o resto", brinca Azambuja.

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, ele foi taxativo em afirmar que em 2013 houve uma mudança de ânimo de investidores e da própria bolsa para projetos de startups. O "efeito X", aponta, ocorre mesmo com o foco em ofertas de R$ 20 milhões a R$ 50 milhões.

A Templars Trust cria e prepara pequenas empresas pré-operacionais sem ativos para irem a mercado, inspirada nas Public Shells americanas. O objetivo do negócio é capitalizar as companhias por meio de leilões na bolsa para venda de participações acionárias. A diferença é que Azambuja negocia previamente com os futuros investidores. Depois da listagem, o caminho seria fazer o que o empresário chama de fusão reversa. Nela, a companhia ainda sem ativos - mas já listada e atendendo a requisitos de governança corporativa - se funde com outra que está fora de bolsa.

As nuvens negras que pairam sobre o mercado mudaram a estratégia para a Atletas Brasileiros S/A, primeira empresa que a Templars pretende levar à Bovespa. O modelo inicial seria captar recursos na bolsa para então comprar os direitos econômicos de jogadores de futebol, principal ativo da companhia. Ao perceber uma maior desconfiança, a lógica foi revertida: Azambuja vendeu o controle da companhia para o Paraná Clube e tornou a Templars minoritária no negócio. Com isso, a empresa já chegará à bolsa com um banco de atletas.

Desgaste. "O desgaste do modelo aumentou com a derrocada das empresas X. Percebemos que a própria bolsa ficou desconfortável e resolvemos tornar a companhia operacional antes de fazer a oferta primária", diz. O mesmo será feito com a companhia de saneamento Ectas. Apesar de constatar o revés de Eike, Azambuja diz que o empresário foi fundamental para quebrar paradigmas no Brasil sobre companhias pré-operacionais. "É dele o mérito de inaugurar aqui esse modelo, que lá fora é comum."

O CEO da Templars cita a petroleira HRT como uma outra companhia que apostou na ida ao mercado antes da maturação do negócio e também "errou a mão". Mas frisa que o setor de petróleo, ao contrário das companhias que toca, tem muito risco e exige capital intensivo. Azambuja admite que tem sido alvo de brincadeiras no mercado. "Ser discípulo de Eike agora virou maldição", conta.

Apesar da diferença de tamanho entre a Templars e o império X, guardadas as devidas proporções, os controladores dos dois grupos se assemelham no carisma e na ambição. Recordista em pedidos de registro de companhia aberta na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Azambuja já recebeu o aval para 14 delas. No momento outras seis estão na fila para se tornarem companhias abertas: Florestal Brasileira S/A, CB3P, Deluxe Motor, Templar Web, Templar Pictures e BR Night Entertainment. Este ano serão encaminhados pedidos para Templars Consult e Vinícolas Brasileiras. A justificativa para seguir com os registros é um projeto de longo prazo e a crença de que as condições do mercado tendem a melhorar no segundo semestre, favorecendo as ofertas de ações.

A meta do empresário radicado em Curitiba é montar uma "linha de produção" de 100 companhias por ano, ou seja, criar mil novas companhias no País em dez anos. "É o Projeto Prometeus: roubar o fogo do Olimpo e entregar para o empresário comum", declara, em uma frase digna de Eike Batista.

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