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Maldita, mas não só isso

Como nas grandes inundações, em que sempre há coisas que se salvam do estrago geral, também agora há um punhado de fatores positivos que ajudam um recomeço

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2016 | 21h00
Atualizado 12 de maio de 2016 | 11h51

Com o processo do impeachment aprovado pelo Senado, a presidente Dilma deixa, sim, para o presidente interino, Michel Temer, um acervo sobrecarregado de custos, mas não será apenas uma herança maldita, composta só de coisa ruim.

As contas a pagar já são mais ou menos conhecidas: um setor produtivo que despenca cerca de 8% em apenas dois anos; inflação acima do teto da meta; desemprego que vai para a casa dos 12% da força de trabalho e pode não recuar tão cedo; contas públicas destroçadas e dívida que deverá saltar para 70% do PIB e daí para o que Deus quiser.

O investimento, que teria de ser de pelo menos 22% do PIB, não passa de 18,2% do PIB. As finanças da Previdência encontram-se à beira do colapso, os setores da saúde e da educação beiram a calamidade.

Além do passivo das pedaladas que ainda falta limpar, há os esqueletos fiscais, um cabedal negativo cuja existência se presume, mas cujas dimensões não dá para avaliar. Há, também, a situação fiscal dos Estados e da maior parte dos municípios que é pré-falimentar e clama por transferências de recursos.

Mas não para por aí. A indústria está arrasada; a Petrobrás, em frangalhos; os leilões de serviços públicos, malparados. Todos os projetos de reforma estão empacados, a começar pelos da Previdência, do sistema tributário e do sistema trabalhista.

Mas como nas grandes inundações sempre há coisas que se salvam do estrago geral, também agora há um punhado de fatores positivos que ajudam um recomeço.

Se a confiança está no fundo do poço, como está, fica mais fácil uma recuperação. É só não seguir errando e fazer as escolhas certas, como já se antevê que acontecerá.

A recomposição dos preços administrados (tarifas atrasadas), uma tarefa especialmente árdua e complicada, é um processo praticamente concluído e já não aponta para novos reajustes que, por si sós, seguiriam produzindo inflação. Como já foi dito nesta Coluna em outras ocasiões, as contas externas estão em rápido ajuste. Não há, desta vez, corrida ao dólar. Ao contrário do que aconteceu em crises anteriores, o sistema bancário está sólido e, apesar da derrubada dos preços internacionais das commodities, o agronegócio segue dando show de produtividade.

Depois de cinco séculos de cultura patrimonialista, pela primeira vez no Brasil se trava um combate sério à corrupção e à apropriação de recursos públicos. O Judiciário começa a assumir protagonismo inédito, tanto na execução de um poder moderador como no processo de saneamento da administração pública. É verdade que pairam dúvidas sobre a sustentabilidade dessas novidades, mas, como acontece nos processos de recuperação, no início não se pode exigir demais; é preciso contar até mesmo com algumas recaídas.

Ao fim da 2ª Grande Guerra, certos pais diziam na Europa destruída: “Filho, diante de um desastre de tais proporções, daqui para a frente só pode melhorar”. É quase isso que também pode ser dito a respeito deste governo interino.

CONFIRA:

É menos do mesmo. É a continuação da queda do consumo, como se vê no gráfico acima.

É o estrago da crise

As razões já são conhecidas. As vendas no comércio varejista seguem caindo em consequência do desemprego, da inflação, que come renda do trabalhador, e dos juros altos que desestimulam a tomada de crédito.

Confiança

A varinha mágica que pode mudar essa escrita é a recuperação da confiança, que poderá acontecer se a política econômica entrar nos eixos.

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