Dida Sampaio/Estadão
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'Malvinização da crise' traz ganhos políticos a Cristina

Ao endurecer discurso com os credores, presidente da Argentina recupera prestígio da população na reta final do seu mandato

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2014 | 02h05

Pela segunda vez, em pouco mais de uma década, a Argentina se depara com a iminência de um calote da dívida pública com os credores privados. A perspectiva de se tornar novamente pária dos mercados coincide com a reta final do governo da presidente Cristina Kirchner. Sem ter ainda conseguido forjar um herdeiro político, além de estar constitucionalmente impedida de ser candidata a uma segunda reeleição, entregará o poder em dezembro do ano que vem.

Os dias não têm sido fáceis. A economia do país está em recessão, a inflação deve chegar a 40% e 25% dos argentinos temem perder seus empregos. O governo de Cristina enfrenta ainda brigas entre seus ministros, queixas dos governadores das falidas províncias, além da rebeldia dos sindicatos.

Mas a presidente argentina parece estar virando o jogo. Analistas afirmam que Cristina está em pleno processo de "malvinização da crise da dívida", em referência à Guerra das Malvinas, iniciada pelo ditador Leopoldo Fortunato Galtieri em 1982 com o objetivo de se salvar de uma grave crise interna recorrendo ao nacionalismo exacerbado.

Fontes do peronismo indicaram ao Estado que o objetivo do governo é o de fazer um acordo com os holdouts (denominação dada aos credores que não aceitaram reestruturar suas dívidas em 2005 e 2010), mas evitando que isso pareça - para seus militantes - que a Argentina cedeu ao "imperialismo ianque" e "Wall Street".

Nas últimas semanas, Cristina adotou um discurso de confronto com os credores. Ela acusou os holdouts - aos quais chama de "abutres" - de conspirar contra a Argentina e de planejar o "controle dos recursos naturais do país" por intermédio de um eventual embargo dos ativos da empresa petrolífera YPF nos Estados Unidos. O discurso duro fez sucesso entre os argentinos. Em pesquisa elaborada pela consultoria Poliarquia, divulgada na quinta-feira, 47% dos entrevistados consideram que é "positiva" a postura firme da administração Kirchner com os fundos hedge. Há um mês, a avaliação "positiva" era de 38%.

Ao mesmo tempo, militantes kirchneristas lançaram o slogan "Pátria ou Abutres" e estão organizando uma manifestação de respaldo à presidente na Praça de Mayo no dia 30, quando termina o prazo para que a Argentina pague seus credores reestruturados, algo que depende de um acordo com os holdouts. Caso não pague, a Argentina estará novamente em estado de calote.

Esse caminho de disparar bravatas enquanto cede foi aplicado pelo governo Kirchner duas vezes no primeiro semestre deste ano. A primeira, quando fechou um acordo com a espanhola Repsol pela expropriação da YPF. Há dois anos, o governo havia afirmado que não pagaria nem um centavo sequer aos espanhóis. Mas em março fechou um acordo que implicará no pagamento de US$ 10 bilhões entre capital e juros. A segunda ocasião foi o pacto com o Clube de Paris para pagar sua dívida. O governo nem pediu o tradicional desconto e vai pagar a totalidade da dívida, de US$ 9,7 bilhões.

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