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Algoritmos cada vez mais sofisticados são utilizados na seleção do que iremos ler, assistir e comprar 

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 06h52

Há menos de nove anos — mais precisamente, em março de 2012 — o empreendedor chinês Zhang Yiming fundou a ByteDance, uma empresa de tecnologia com foco em aplicativos para uso via Internet. Recentemente, a ByteDance frequentou os noticiários do mundo todo em função da disputa entre o governo norte-americano e chinês em torno de um de seus produtos: a rede social de compartilhamento de vídeos TikTok (que foi lançada globalmente há pouco mais de dois anos). Estima-se que o número de usuários do serviço na China (onde chama-se Douyin) e no resto do mundo ultrapassa um bilhão de pessoas: em 2019, estima-se que a ByteDance obteve receita total de cerca de US$ 20 bilhões (e nesse mesmo ano, Zhang Yiming foi considerado pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo).

Em um movimento inédito, e alegando que as informações coletadas pelo sistema estariam sendo compartilhadas com o Partido Comunista Chinês, o uso da rede social nos EUA ficou condicionado à compra de suas operações por uma companhia daquele país. A TikTok nega o compartilhamento das informações que são coletadas — algo que não só ela, mas toda rede social ou serviço online que qualquer um de nós utiliza acaba fazendo, de uma forma ou de outra. Leis como a LGPD (“Lei Geral de Proteção de Dados”) no Brasil ou a GDPR (“General Data Protection Regulation”, ou “Regulamento Geral de Proteção de Dados”) na Europa visam proteger o consumidor final do uso indevido de suas informações pessoais, que são compartilhadas a cada interação com serviços de base tecnológica.

Empresas e serviços de tecnologia utilizam os dados de seus usuários para tentar melhorar sua experiência final e, como consequência, fazer com que esses mesmos usuários permaneçam mais tempo usando o serviço. Isso aumenta o valor de cada click e de cada propaganda que aparece nas telas de todos os tamanhos. As recomendações da próxima série a assistir no Netflix, do próximo produto a comprar na Amazon ou do próximo link a clicar no Google são uma consequência direta da análise que algoritmos sofisticados realizam sobre a forma como os próprios serviços são utilizados individual e coletivamente — e esses “algoritmos sofisticados” são uma peça-chave na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China que discutimos nas colunas sobre a nova rota da seda, a potencial cisão da Internet, censura na Internet e sobre ciberespionagem.

A história de sucesso da ByteDance começa com o lançamento de um app de notícias chamado Toutiao (ou “Manchetes”), poucos meses após sua fundação. Atualmente, cerca de 120 milhões de pessoas utilizam o serviço na China, passando em média cerca de 75 minutos por dia na plataforma — mais que o tempo médio de uso no Facebook (58 minutos), Instagram (53 minutos) ou Snapchat (50 minutos) de acordo com o site Broadband Search. Utilizando técnicas de machine learning (aprendizado de máquina), o sistema fornece sugestões personalizadas conforme o perfil de uso de seus usuários e suas interações em diversas redes sociais. Entretanto, a plataforma não se limita a recomendar conteúdo: ela também é capaz de gerar conteúdo — e de forma autônoma. 

Desenvolvido em uma parceria entre a Universidade de Pequim e o Laboratório de Inteligência Artificial da ByteDance — mais um exemplo da produtiva integração entre academia e indústria — o “Xiaoming Bot” publicou 450 artigos durante as Olimpíadas de 2016, realizadas no Rio de Janeiro, em média dois segundos depois do encerramento do evento. Técnicas de inteligência artificial também são utilizadas para otimizar as recomendações de conteúdo, via processamento de linguagem natural e análise de big data. E é justamente sobre a adoção de sistemas inteligentes em larga escala — seja de forma supervisionada ou não — e seus impactos que iremos falar em nossa próxima coluna. Até lá.  

*Fundador da GRIDS Capital e autor do livro "Futuro Presente - o mundo movido à tecnologia",vencedor do Prêmio Jabuti 2020 na categoria Ciências. É Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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