Manequim mais apertado

Não é só o tsunami da corrupção desbragada que está devastando a Petrobrás. O furacão que assola o mercado internacional de petróleo dá contornos mais dramáticos à fragilíssima situação econômica e financeira da companhia. O que já estava muito ruim, tudo indica, ainda pode ficar pior.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2014 | 02h01

A cotação das ações rompeu para baixo, no pregão de ontem, a barreira de R$ 10, e o papel teve de passar por leilão porque chegou a recuar mais de 10% sobre o preço de referência. Nenhum analista se arrisca a indicar o fundo do poço, mas a pergunta realmente valiosa nem é essa. Importa mais saber em que nível vai estabilizar depois de parar de cair.

Com valor de mercado abaixo de R$ 140 bilhões para um patrimônio líquido, no balanço de 2013, de R$ 350 bilhões, as ações da Petrobrás estão hoje negociadas a 40% do seu valor patrimonial. Nesse andar da carruagem, daqui a pouco investidores mais ousados começarão a achar que a ação ficou tão barata que já valeria o risco de comprar. O duro será estabelecer quanto valerá a empresa não só depois de limpar toda a lama acumulada em anos de roubalheiras, mas também depois que o mercado internacional de petróleo encontrar seu novo ponto de equilíbrio.

Com dívidas que somam quatro vezes sua geração de caixa, a Petrobrás nem por milagre terá condições de cumprir o ambicioso plano de investir US$ 220 bilhões daqui até 2017. As dificuldades virão tanto das restrições de acesso ao mercado de crédito quanto da menor geração de caixa, caso persista a tendência de baixa nas cotações do petróleo. A óbvia saída de turbinar os preços de venda no mercado interno tem, igualmente, um óbvio limite, dado não só pela pressões inflacionárias daí advindas como pelo impacto negativo na já nocauteada competitividade da economia doméstica.

Se fosse apenas uma questão de redução de margens, o atual derretimento das cotações do petróleo já seria uma grande dor de cabeça para a Petrobrás. Ocorre que os riscos desse movimento são muito mais graves, podendo afetar, diretamente, os níveis de produção da empresa, e, indiretamente, toda a importante cadeia de petróleo e gás que opera tendo a Petrobrás como eixo irradiador.

Sempre é muito difícil projetar a trajetória das cotações. Dependente de elementos imprevisíveis, que vão de guerras e crises econômicas a eventos climáticos e jogadas financeiras, o vento, no setor, vira rápido. Soa risível hoje, por exemplo, que, em meados de 2008, influenciadas por uma alta de 650% nas cotações desde 2002, as previsões, às vésperas da eclosão da grande crise global, indicassem que o barril poderia chegar, já em 2009, a US$ 400.

No fim da primeira década deste século, quando a produção não convencional (petróleo e gás de xisto) ainda não alcançara a escala atual nem a crise econômica mostrara a renitência hoje conhecida, as projeções de longo prazo para a cotação do petróleo apontavam um valor entre US$ 65 e US$ 70 até 2030. Esse é o nível a que agora chegaram os preços, saindo de US$ 115, em junho de 2014. É também o nível, coincidência ou não, previsto para 2015 e 2016.

Responsável por 30% da produção mundial, a Opep, sob a liderança do maior produtor, a Arábia Saudita, está mantendo a produção e, portanto, aceitando a queda nas cotações, na tentativa de alijar os concorrentes produtores não convencionais. A maior parte da produção de petróleo não convencional, de acordo com especialistas, é viável entre US$ 30 e US$ 60 por barril.

A faixa de viabilidade da extração de óleo, no caso do pré-sal brasileiro, também é elástica, conforme o analista. O governo assegura que até US$ 45 por barril o pré-sal é viável, mas o cálculo no mercado sobe para até um mínimo de US$ 60. Em qualquer hipótese, a Petrobrás, mesmo depois da desinfecção pela qual, obrigatoriamente, terá de passar, deverá encolher de tamanho e entrar num manequim mais apertado.

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