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Manequins ‘turbinados’ favorecem o comércio na Venezuela

Fabricante explica que decidiu acompanhar a tendência das mulheres do país, que recorrem cada vez mais às cirurgias para aumentar os seios

The New York Times,

07 de novembro de 2013 | 20h08

VALENCIA - Venezuela. Frustrado com as vendas modestas da sua pequena fábrica de manequins, Elieser Álvarez observou que cada vez mais as mulheres venezuelanas estão se submetendo a cirurgias plásticas para transformar seus corpos, mas os manequins das vitrines das lojas de roupas não refletiam essas novas proporções do corpo, com frequência até radicais.

Assim, resolveu criar um manequim feminino que achava que o público iria apreciar - seios grandes e bum-bum empinado, cintura de vespa e longas pernas, uma fantasia em fiberglass no estilo venezuelano.

As formas do corpo aumentaram e as vendas também. Hoje seus manequins se tornaram padrão nas lojas por toda a Venezuela, atendendo a uma noção exagerada, às vezes polarizada, da forma do corpo feminino que é vista nas portas de entrada das pequenas lojas que vendem roupas baratas e também nas vitrinas das butiques elegantes dos shopping centers.

 

Autoestima. A arte de Eliezer Álvarez pode ter por objetivo imitar a vida. Mas numa cultura saturada de tais imagens, a vida está imitando a arte."Você vê uma mulher como esta e diz ‘uau, quero ser como ela’", disse

Reina Parada, enquanto lixava o tronco de um manequim na fábrica. Embora não pudesse se dar ao luxo disso, disse, gostaria de fazer uma plástica algum dia. "A autoestima aumenta", disse.

As cirurgias plásticas estão tão em moda na Venezuela que apenas ocasionalmente alguém se refere a uma mulher com implantes como"operada".

As mulheres conversam livremente sobre suas plásticas e os fabricantes de manequins referem-se às suas criações como seres "operados" também. A mulher de Álvarez e sua sócia, Nereida Corro, diz que o manequim mais vendido, com proporções exageradas, é o modelo "normal".

A aceitação da cirurgia plástica entra em choque com a ideologia socialista do governo e o discurso frequente de criar uma sociedade livre da mancha do mercantilismo.

Chávez. O ex-líder  venezuelano Hugo Chávez, que morreu em março depois de 14 anos na presidência, criticou esses procedimento, afirmando ser "monstruoso" o fato de mulheres pobres gastarem dinheiro em plásticas nos seios quando tinham dificuldades para sobreviver até o fim do mês.

Mas o mesmo recuso do qual o governo depende - as maiores reservas de petróleo estimadas do mundo - por muito tempo alimentou a cultura do dinheiro fácil e do consumismo no país, juntamente com a tendência dos venezuelanos a buscar soluções rápidas e a satisfação instantânea.

"A Venezuela é conhecida pelo seu petróleo e pela sua beleza", disse Lauren Gulbas, estudiosa do feminismo e antropóloga no Dartmouth College, que estudou o comportamento das venezuelanas com relação às cirurgias plásticas na Venezuela. Por isso a plástica é considerada tão importante para as venezuelanas".

A beleza assumiu um papel particularmente relevante nos anos 70 e 80 quando as rainhas de beleza do país,  já uma obsessão nacional, foram coroadas Miss Universo três vezes.

Seu sucesso internacional teve uma repercussão especial. As coroações ocorreram quando o país viu frustradas suas expectativas de boom do petróleo nos anos 70 e mergulhou numa profunda desaceleração econômica em seguida, levando a Venezuela a uma crise de confiança nacional.

E a fama das rainhas de beleza colaborou para alimentar um fascínio pelas cirurgias plásticas como  implantes nos seios, para redução do estômago, plásticas no nariz e injeções para firmar os glúteos.

Misses. Osmel Souza, por longo tempo diretor do concurso de Miss Venezuela, assume o mérito da mudança. Ele recomendou uma operação de nariz para a primeira Miss Universo venezuelana, o que, segundo disse, tornou sua vitória possível há mais de três décadas.

"Quando há um defeito eu o corrijo", disse ele. "Se pode ser facilmente resolvido com uma cirurgia, por que não fazer?"

Segundo ele, a beleza realmente é aquilo que se vê. "Sempre digo que beleza interior não existe. Foi algo que as  mulheres feias inventaram para se justificarem"Naturalmente nem todos pensam desta maneira.

Diversos grupos de mulheres protestaram contra o concurso de beleza para eleger Miss Venezuela no mês passado, criticando as pressões sobre as mulheres para se adaptarem à estética artificial.

Os poucos dados disponíveis sugerem que as venezuelanas não fazem mais plásticas do que suas colegas de muitos outros países. Mas segundo a antropóloga Lauren Gulbas, as cirurgias plásticas são mais difundidas aí graças à importância que se dá à beleza no país e à crença de que as cirurgias ajudam a projetar uma imagem de sucesso.

Presença. "Existe na Venezuela a noção da "boa presença", disse ela. "Que transmite que você tem alguns aspectos mostrando que é uma pessoa trabalhadora, um bom empregado, uma pessoa honesta".

Diariamente Yaritza Molina coloca diversos manequins na entrada da pequena loja de roupas femininas que ela dirige em Coro, cidade a oeste da Venezuela e sempre se preocupa em colocar dois na frente. "São as princesas, porque têm o busto maior", disse ela.

"Tenho muitas clientes que me dizem, ‘gostaria que ser como essa manequim’". E eu sempre respondo, ‘OK, faça uma plástica". Como em muitos países, essa obsessão comporta riscos. Nos últimos dois anos, os jornais locais têm noticiado vários casos de mulheres que morreram depois da aplicação de injeções erradas para firmar seus glúteos, com frequência em clínicas sem licença para funcionar.

O salto nas vendas propiciado pelos novos manequins com grandes seios permitiu a Elieser Álvarez e sua mulher abrirem uma nova fábrica este ano, onde os bonecos são feitos à mão num processo que  envolve pouca tecnologia.Tradução de Terezinha Martino

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