MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO
MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

Manifestação contra reformas afeta as grandes cidades e termina em violência

Greve começou na madrugada desta sexta e, com adesão de trabalhadores do setor de transporte, ruas das principais cidades ficaram vazias durante boa parte do dia; os protestos que começaram no final da tarde tiveram tumulto e confrontos com a polícia

O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2017 | 21h46

SÃO PAULO - A greve geral convocada para a sexta-feira pelas centrais sindicais, para protestar principalmente contra os projetos de reforma trabalhista e da Previdência, afetou a rotina de cidades em todos os Estados. Com a adesão dos trabalhadores do setor de transportes, as ruas, principalmente das grandes cidades, ficaram vazias. Em São Paulo, os índices de congestionamento ficaram bem abaixo da média.

As avaliações sobre o movimento eram divergentes. Mas, para boa parte dos analistas, o impacto na aprovação das reformas em tramitação no Congresso não deve ser muito forte. Para a consultoria Eurasia, que prevê que tanto a reforma trabalhista quanto a previdenciária sejam aprovadas até julho, as manifestações foram menores do que o esperado. A avaliação é que novos protestos poderão ocorrer nas próximas semanas, mas não devem paralisar o Congresso.

O governo fez questão de afirmar, desde o início do dia, que a greve tinha adesão menor do que a esperada. A avaliação era de que as manifestações ficaram concentradas nos grandes centros urbanos. As centrais sindicais, porém, asseguram que essa foi a maior greve já registrada no País.

No mercado financeiro, as manifestações não provocaram reações negativas. A percepção dos analistas foi de que a greve não foi suficiente para abalar o andamento das reformas. O dólar fechou o dia em queda de 0,1%, cotado a R$ 3,1787, após subir mais de 1% no início do dia. A Bovespa, por sua vez, fechou em alta de 1,12%, aos 65.403 pontos.

“Havia uma certa preocupação com o tipo de repercussão que (a greve) poderia ter, que se diluiu durante o dia. A paralisação praticamente se resumiu à mobilidade urbana”, disse o estrategista de renda fixa da Coinvalores, Paulo Nepomuceno.

O cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Cláudio Couto, porém, considera que a greve foi bem-sucedida. Para ele, o movimento tem potencial de influenciar a votação das reformas encaminhadas pelo governo ao Congresso, embora seja difícil fazer um prognóstico sobre qual será esse impacto. “A paralisação foi grande, principalmente no transporte público, que causa um efeito em cadeia, e na área de educação, que tem efeito na percepção das famílias”, avalia o especialista.

O comércio fez cálculos de uma grande perda com a paralisação. Segundo a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FecomercioSP), o faturamento diário do setor no País chega a R$ 5 bilhões, e uma greve geral tem potencial de causar um forte rombo. E, levando-se em conta o feriado de 1.º de maio, quando boa parte das lojas estará fechada, esse prejuízo potencial fica bem maior.

O presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, afirmou que a realização de uma greve geral neste momento de recessão só atrapalha. “Os sindicalistas estão se esquecendo que estão em um País onde 14 milhões de pessoas estão desempregadas”, disse, em entrevista ao Broadcast.

A GREVE PELO BRASIL

As paralisações deixaram milhões de pessoas sem transporte público e transformaram parte das capitais do País em "cidades fantasma".

Confira o balanço:

Natal. Na cidade, 40% da frota de ônibus circulou devido a uma determinação do Tribunal Regional do Trabalho. Por volta das 4h, sindicalistas impediram a saída dos veículos das garagens, que começaram a circular com atraso. Às 9h, o movimento já era regular, dentro da restrição determinada. Algumas pessoas pegaram carona para chegar ao trabalho e outras não tiverem como ir.

Os atos durante a manhã foram pacíficos, e o trânsito fluiu tranquilamente. Segundo a CUT, cerca de 40 mil pessoas participaram dos protestos, mas a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Militar não confirmaram o número.

Salvador. Os ônibus não saíram das garagens. Houve movimentações pontuais nas principais avenidas da cidade, que foram fechadas. Poucos manifestantes bloquearam rodovias nas entradas de algumas cidades. O trânsito ficou congestionado, escolas públicas e privadas não funcionaram. À tarde, poucas pessoas aderiram à manifestação, justamente pela falta de transporte que as conduzissem ao centro da cidade.

Recife. A capital pernambucana amanheceu sem transporte público, com ônibus e metrô parados, o que transformou o centro em uma cidade fantasma. No início da tarde, uma concentração de manifestantes na Praça do Derby, centro de Recife, reuniu mais de quatro mil pessoas, entre estudantes, trabalhadores ligados a sindicatos e centrais sindicais e militantes de partidos da oposição ao governo Temer.

Por volta das 17h30, os manifestantes saíram da Praça do Derby, na Avenida Agamenon Magalhães, em direção à Praça da Independência, próximo à sede do Governo do Estado. O trajeto é um dos roteiros tradicionais de manifestações na cidade. Assembleia Legislativa, Câmara de Vereadores, as principais instituições de ensino superior e a maior parte das escolas públicas e privadas decidiram suspender as atividades. Logo cedo, a Polícia Rodoviário identificou cerca de 30 pontos de bloqueio em rodovias federais e estaduais no Estado.

Fortaleza. O Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Ceará (Sintro) aderiu à greve geral desta sexta-feira, 28. A decisão foi tomada no dia 20 deste mês em assembleia. Em publicação nas redes sociais, o sindicato confirmou que a adesão foi total.

Aracaju. Segundo o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Aracaju (SETRANSP), os rodoviários não aderiram à greve geral desta sexta-feira, 28. Porém, devido a bloqueios nas principais vias, depredações e agressões contra colaboradores do sistema de transportes, as empresas optaram por não liberar os funcionários para o serviço.

A manifestação começou por volta das 2h, quando pessoas bloquearam a saída de ônibus das garagens. Às 11h, o grupo se dispersou, mas o clima de tensão impediu que motoristas saíssem com os veículos. O sindicato informou que a operação do serviço de ônibus coletivo retorna à normalidade a partir das 0h deste sábado, 29. O setor estima que mais de 230 mil passageiros ficaram sem o serviço nesta sexta-feira devido às manifestações.

Brasília. Até as 18h23, todo o transporte público que circula no Plano Piloto em Brasília estava paralisado. Os manifestantes ocuparam o gramado em frente ao Congresso durante a manhã. Não houve confronto. 

Belo Horizonte. O metrô, parte do sistema de transporte por ônibus, lojas e agências bancárias da região central de Belo Horizonte, além de escolas das redes pública e particular não funcionaram nesta sexta-feira, 28, na capital mineira.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou bloqueios em 23 trechos de sete estradas que cortam o Estado de Minas Gerais. A maior parte das interrupções (6) ocorreu na BR-116, a chamada Rio-Bahia, nos municípios de Manhuaçu (Zona da Mata), Governador Valadares, Frei Inocêncio e Alpercata (Vale do Rio Doce), Teófilo Otoni (Vale do Mucuri), e Itaobim (Vale do Jequitinhonha). Os trechos foram liberados ao longo do dia.

Também foram registradas interrupções do tráfego em cinco trechos da BR-040. Dois no sentido Belo Horizonte/Brasília e três em pontos entre a capital mineira e o Rio de Janeiro. Houve ainda paralisação no tráfego na MG-010, que liga Belo Horizonte ao aeroporto de Confins. O terminal, no entanto, operou normalmente ao longo do dia.

Porto Alegre. Ônibus, metrô e trens ficaram totalmente paralisados na capital gaúcha nesta sexta-feira, 28. De acordo com a Empresa Pública de Transporte e Circulação, e a Empresa de Trens Urbanos, não há previsão de retorno do transporte público às ruas de Porto Alegre ainda nesta sexta. Manifestações, paralisações e protestos nas estradas fizeram com que aproximadamente 70% das viagens a partir da Rodoviária de Porto Alegre fossem canceladas. 

Rio de Janeiro. A capital fluminense amanheceu com um número menor de ônibus circulando pelas ruas da cidade, causando tumulto entre os passageiros, que se espremiam nos coletivos para chegar ao trabalho. Mais tarde, o transporte coletivo de ônibus foi normalizado. Também houve piquete na estação de barcas em Niterói. O transporte sobre trilhos funcionou sem interrupções ao longo do dia. No final da tarde, manifestante entraram em confronto com a PM no centro da cidade, destruindo fachadas de lojas e colocando fogo em carros e ônibus.

São Paulo. A cidade teve operação parcial de metrô e trem e paralisação de 100% da frota de ônibus durante a manhã e ao longo de toda a tarde desta sexta-feira. Durante a tarde, os manifestantes fecharam as avenidas Paulista e Faria Lima. Nas proximidades do Largo da Batata, houve confronto com a polícia. Parte dos manifestantes caminhou até a casa do presidente Michel Temer e novamente houve confronto com a PM e depredação.  

Curitiba. A promessa dos sindicatos de motoristas de ônibus e cobradores da capital do Paraná era de paralisação completa nesta sexta-feira. Até o fim da tarde, curitibanos continuavam sem transporte público, apesar da decisão da Justiça que determinou que o sindicato mantivesse uma frota mínima de 80%. Trinta e duas categorias aderiram às manifestações, entre elas motoristas e cobradores de ônibus, metalúrgicos, bancários e funcionários públicos estaduais e municipais. Durante todo o dia não foram registrados conflitos.

Goiás. Em Goiânia, no início da manhã, os ônibus do Eixo Anhanguera não saíram da garagem do Metrobus, onde integrantes da Força Sindical impediram a saída dos veículos desde as 3h. O primeiro ônibus da empresa saiu às 9h. A Rede Metropolitana de Transporte Coletivo (RMTC) fez uma reunião na manhã desta sexta em que, por votação, decidiu retomar as atividades.

Belém. Durante toda a manhã e início da tarde desta sexta-feira, 28, rodoviários de Belém participaram dos protestos na greve geral. Os manifestantes interditaram ruas pelos bairro do Marco, São Brás e Canudos. Eles tentaram bloquear vias com ônibus e paralisar o serviço.

Manaus. Em alguns pontos do centro da capital do Amazonas, ônibus ficaram parados e enfileirados. Por volta das 12h, os rodoviários começaram a liberar as vias, mas foram direto para as garagens. O Sindicato dos Rodoviários impediu a saída em duas garagens. 

Cuiabá. A mobilização dos trabalhadores em Cuiabá começou às 6h na Praça Ipiranga, região central da cidade. O transporte coletivo não funcionou, e os manifestantes chegaram a pé e de carona. Segundo sindicalistas, os 28 sindicatos de trabalhadores da iniciativa privadas, os 32 dos servidores públicos do Estado, além de servidores federais e municipais, confirmaram adesão à greve nacional.

Porto Velho. Em Rondônia, manifestantes se concentraram na Praça das Três Caixas D'água, na Avenida Carlos Gomes. Com faixas, camisetas e bandeiras, protestam contra a reforma da Previdência.

Florianópolis.  Não houve circulação de ônibus em Florianópolis nesta sexta-feira. O trânsito esteve carregado ainda no início da manhã, por volta das 6h30, e trabalhadores substituíram o transporte coletivo por caronas e vans, que custavam em média R$ 8. Por volta das 10h, manifestantes ocuparam a Av. Gustavo Richard, que não interrompeu o trânsito.  Às 16h, a Av. Beira-Mar estava bloqueada nos dois sentidos devido à passeata dos manifestantes.

Alguns serviços básicos, como o centro de saúde do bairro dos Ingleses, esteve fechado durante todo o dia. Algumas ruas da região da prefeitura de Florianópolis foram fechadas para o livre trajeto dos manifestantes.

Teresina. O Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Rodoviário do Piauí (Sintetro) aderiu à greve. Os ônibus de transporte urbano da capital sairiam normalmente das garagem, mas a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e outros entidades pediram que os ônibus parassem a partir das 7h.

Campo Grande. O transporte coletivo municipal parou pela manhã em Campo Grande. A rodoviária intermunicipal da cidade também ficou paralisada.

Rio Branco. Trânsito ficou parado no centro  da capital do Acre. Centrais sindicais interditaram o Terminal Urbano, e os ônibus ficaram parados nas avenidas Ceará e Brasil. O RBTrans já havia admitido, em nota, atraso no transporte público devido aos protestos.

Macapá. Os ônibus não transitaram entre 6h e 8h, mas o aeroporto funcionou normalmente. A Diocese de Macapá declarou apoio à paralisação e os manifestantes caminharam pela cidade entre 8h30 e 12h. Todas as lojas ficaram abertas e, segundo a Central Única dos Trabalhadores no Amapá (CUT-AP), participaram da manifestação 10 mil pessoas. A PM não confirmou o número. Na parte da tarde, todas as atividades já estavam normalizadas.

Maceió. As rodoviárias amanheceram paradas nesta sexta, 28, na capital de Alagoas. Segundo o Centro de Gerenciamento de Crises da Polícia Militar, o ato reuniu 5 mil pessoas na cidade. Já de acordo com os líderes sindicais, o número chegou a 20 mil. As principais avenidas da cidades foram fechadas e só ambulâncias conseguiram passar.

Vitória. Apesar da determinação da Justiça para que 50% da frota dos ônibus da Grande Vitória circulassem, os coletivos não saíram das garagens. Por volta das 5h30, manifestantes interditaram as vias na região da Vila Rubim, em Vitória. Já por volta das 14h, metade da frota de ônibus estava circulando normalmente.

João Pessoa. O sindicato dos trabalhadores bloqueou a saída de ônibus das garagens. Os ônibus começaram a circular por volta das 14h, mas os motoristas não aceitaram colocar 30% da frota nas ruas. Segundo a organização do protesto, 20 mil pessoas se reuniram no Ponto de Cem Réis, praça no centro da cidade.

Palmas. Com bancos, Correios e algumas escolas fechadas durante todo o dia, pelo menos 10 mil pessoas compareceram às manifestações na Av. JK, em Palmas, na parte da manhã. Os números são da CUT e não foram confirmados pela PM.

Boa Vista. Os protestos fecharam as vias de acesso ao centro da capital de Roraima em três pontos: Avenida Brigadeiro Eduardo Gomes, próximo ao Ibama; na BR-174, no bairro Cauamé; e na Avenida Centenário, próximo ao posto Caracas. A região mais crítica foi a do bairro Cauamé, onde também houve confronto com a polícia depois que os manifestantes atearam fogo em pneus. A PM reagiu com bombas de gás lacrimogêneo.

São Luís. A capital do Maranhão amanheceu sem ônibus nesta sexta-feira, 28. O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros (SET) comunicou que obteve decisão favorável na Justiça para garantir circulação de 60% da frota, mas os coletivos só voltaram a circular no início da noite. A ponte Pirangi, que liga o Piauí ao Maranhão, esteve bloqueada durante parte do dia.

(Com informações de Ludimila Honorato, Sara Abdo e Ricardo Rossetto)

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