Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Manifestantes invadem a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro

Em protesto contra o pacote anticrise, grupo tomou o plenário e ocupou as cadeiras do presidente, Jorge Picciani (PMDB), e de outros deputados

Vinícius Neder, Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2016 | 15h19

RIO - A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) foi invadida na tarde desta terça-feira, 8, e ocupada durante cerca de quatro horas por servidores públicos da área de segurança. Desde a manhã, os servidores protestavam contra o que por eles foi classificado como "pacote de maldades" proposto pelo governo fluminense para combater a grave crise fiscal que levou o Estado a decretar calamidade pública. 

O protesto começou no fim da manhã e fechou a Rua Primeiro de Março, uma das principais vias do centro do Rio, causando engarrafamentos. A invasão ocorreu por volta de 14h20, após momentos de tensão. Num balanço divulgado no fim do dia, a subdiretoria-geral de segurança da Alerj informou que diversas portas do Palácio Tiradentes, sede da casa, foram danificadas. No plenário, o vidro da mesa da presidência foi quebrado, três armários foram arrombados e forros de cadeiras foram arrancados. Quatro microfones sumiram, segundo o balanço.

Os manifestantes tomaram o plenário da Casa e se sentaram nas cadeiras do presidente, Jorge Picciani (PMDB), e de outros deputados. Também as galerias do segundo andar, onde costuma ficar o público que assiste as votações, foram ocupadas. No plenário da Alerj, manifestantes tomaram os microfones para discursar. Extintores de gás carbônico foram acionados, lançando fumaça na sala. No momento da invasão, o plenário estava vazio e havia poucos deputados na casa. Picciani não estava no local.

O presidente da Coligação da Polícia Civil, Fabio Neira, afirmou que a área de segurança pública não tem mais como aceitar qualquer ônus que o Estado proponha. Segundo o diretor do Sindicato dos Servidores do Sistema Penal do Rio, Odonclei Boechat, neste momento não há previsão de os policiais iniciarem uma greve. “Está descartado. O que queremos é evitar a votação do pacote na Alerj, é nosso movimento nesse momento”, disse.

Subtenente do Corpo de Bombeiros, Luiz Souza da Silva afirmou que o pacote do governo estadual “veio como um tiro no peito”. Há 28 anos na corporação, Silva aguarda a finalização de seu processo de pedido de aposentadoria e contou que, desde que o Estado começou a adiar a data de pagamento, vem tentando ajustar seu orçamento familiar. Uma das saídas foi tirar os filhos do colégio particular e matriculá-los na rede pública. “A vida fica atrapalhada em tudo, na estrutura familiar e financeira”, disse Silva ontem no ato no centro do Rio, antes da invasão da Alerj. 

Após o tumulto, os servidores começaram a deixar o local por volta das 18h de mãos dadas, sem tumulto, cantando o hino nacional e aos gritos de "Fora Pezão". "Foi só uma demonstração do que podemos fazer. Temos força. Dia 16, de votação, a gente volta", disse o inspetor penitenciário Antônio de Jesus. A estimativa dos organizadores é de que cerca de 5 mil pessoas tenham participado do ato. A intenção é pressionar deputados estaduais a votarem contra as medidas. As medidas que causaram revolta atingiram inclusive servidores inativos, hoje isentos de contribuição previdenciária, e que passarão a contribuir com 30% de seus salários. 

Policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar não impediram a entrada de mais manifestantes na Alerj. Havia uma expectativa para que os agentes bloqueassem a invasão, mas eles não reagiram. Os manifestantes foram direto para o segundo andar do plenário. O gabinete da vice-presidência ficou totalmente destruído. Funcionários que estavam no local conseguiram deixar o prédio por uma saída antes da entrada dos servidores.

Fuga. Por motivo de segurança, quatro deputados estaduais que estavam no Palácio Tiradentes no momento de sua invasão pelos manifestantes se refugiaram na sala do Departamento Médico da Assembleia Legislativa. Ali esperaram por cerca de meia hora, enquanto os servidores tomavam plenário e corredores da Casa. Depois, quando os ânimos pareceram mais calmos, foram, com a ajuda de seguranças, levados até uma porta lateral do prédio, por onde saíram, ainda em meio a funcionários exaltados. Não foram importunados, segundo um dos parlamentares, o líder do PSDB, Luiz Paulo Corrêa da Rocha.

"Eles (os manifestantes) forçavam o portão da frente", relatou o tucano ao Estado. "Estávamos na sala do Colégio de Líderes eu e os deputados Wanderson (Nogueira, PSOL), (Geraldo) Pudim (PMDB) e Zaqueu (Teixeira, PDT). Em outro andar, estava o deputado Wagner Montes (PRB). Os outros deputados tentavam entrar, mas não conseguiram."

Da sala do Colégio de Líderes, os quatro deputados acompanharam o desenrolar da manifestação e saíram quando a invasão era iminente. Usaram uma passagem que estava oculta por tapumes de obra, o que facilitou a saída discreta.

Um dos deputados que estavam do lado de fora do Palácio Tiradentes, Paulo Melo (PMDB), contou que tentou entrar, mas foi impedido. Quanto voltava para seu gabinete, no Anexo, que fica atrás do prédio principal, os manifestantes conseguiram entrar. 

Pacote fiscal. Composto de 22 projetos de lei, o pacote de Pezão foi enviado à Alerj na sexta-feira passada, e inclui iniciativas impopulares, como a elevação da contribuição previdenciária de servidores ativos, inativos e pensionistas.

No fim da manhã, lideranças da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) começaram a incitar os manifestantes a enfrentar o Batalhão de Choque, responsável pela segurança dos funcionários da Alerj que estavam no prédio. Na tentativa de acalmar os ânimos, o presidente do Sindicato dos Servidores do Sistema Penal do Rio, Odonclei Boechat, chegou a convocar um abraço no prédio, localizado no centro da cidade, num ato simbólico de respeito à casa legislativa e à democracia, mas não teve sucesso. 

A manifestação reúne servidores da Polícia Civil, da Polícia Militar, bombeiros e representantes de penitenciárias, que se organizaram por meio do Facebook  e Whatsapp. "Vamos invadir e só vamos sair depois que o pacote de maldades for derrubado", afirmou, ainda pela manhã, uma das lideranças que se identificou como policial militar do 22º Batalhão. Até que o prédio fosse invadido, as lideranças da Polícia Militar e do sindicato dos inspetores penitenciários discutiam no carro de som instalado na frente da Alerj se os manifestantes deveriam ou não invadir a Alerj. 

Novo protesto está marcado para esta quarta-feira, às 10 horas, de novo em frente à Alerj, organizado pelo Movimento Único dos Servidores Públicos do Estado do Rio (Muspe-RJ). Segundo Ramon Carrera, integrante do movimento e diretor do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário (Sind Justiça-RJ), outro protesto está marcado para o próximo dia 16.

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