LOUISA GOULIAMAKI/AFP
LOUISA GOULIAMAKI/AFP

Manifestantes vão às ruas pelo fim da austeridade

Público formado na maior parte por universitários e militantes de esquerda fez marcha pelo ‘não’; nesta terça-feira, é o dia dos apoiadores do ‘sim’

Fernando Scheller, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2015 | 22h21

ATENAS - Fim de noite em Atenas. Em frente à sede do parlamento, soldados marchavam em um ritmo solene, na última troca da guarda do monumento ao soldado desconhecido. Caminhões-pipa tentavam “varrer” as latas de cerveja espalhadas pelo chão. Enquanto os últimos das dezenas de milhares de manifestantes bebiam a última cerveja e os organizadores recolhiam as faixas com palavras de ordem, o dia do “não” às exigências da União Europeia para a permanência da Grécia na zona do euro se encerrava. Hoje, os que pretendem votar “sim” no referendo de domingo devem se manifestar.

No dia em que o povo foi pacificamente às ruas e os bancos amanheceram fechados, quem resistiu até quase à meia-noite teve direito a um show de música grega, que resgatou canções ligadas à contracultura, como as de Nikolas Asimos, ídolo falecido em 1988. O movimento popular fechou as ruas do centro de Atenas. Ao chegarem, turistas eram orientados no aeroporto a usarem o metrô para não ficarem presos no trânsito. Os caixas eletrônicos, na maioria dos casos, tinham dinheiro para fornecer pelo menos o limite diário de ¤ 60 determinado pelo governo.

O público que foi às ruas nesta segunda-feira, formado principalmente por militantes de esquerda e estudantes universitários, defende que é preciso impor limites às exigências de austeridade econômica que, nos últimos anos, só fizeram deteriorar as condições de vida do povo grego. “Não podemos mais viver com medo”, diz a professora Eleni Vlachou, 27 anos. “Nos últimos cinco anos, a Grécia tem vivido pensando: eles vão nos dar dinheiro ou não?” 

Para Eleni, que foi ao protesto com três amigos, o país precisa ter a coragem de seguir em frente e tentar uma nova política - já que a estratégia atual claramente não está funcionando. Nos últimos cinco meses, ela trabalhou em um projeto educacional. Só vai receber o dinheiro agora: € 1,5 mil para cinco meses de trabalho, ou € 300 por mês. E o Estado ouviu relatos de jovens que dizem ganhar ainda menos em seus empregos.

Alguns jovens que pretendem votar contra a permanência da Grécia na zona do euro enfrentam um “choque cultural” dentro de casa. “Eu acho que devemos votar ‘não’, mas a minha mãe não entende. Ainda preciso convencê-la”, diz o estudante de economia Grigorios Adamopoulos, de 26 anos. “É claro que o que estamos propondo envolve um risco, o desconhecido, mas é melhor do que ficar do jeito que está.”

Fuga. A maior parte dos amigos e a mãe da estudante de televisão Valeria Roumpou, 20 anos, deixaram a Grécia. No entanto, essa alternativa - facilitada pelo trabalho livre em todo o continente - é menos atraente do que parece, segundo a estudante. A mãe de Valeria, apesar de ter diploma universitário, trabalha como faxineira na Inglaterra. “A gente não vai achar um bom emprego fora daqui. O que a minha mãe recebe lá não permite que ela nos ajude.”

Na narrativa da crise grega, há uma clara vilã: a Alemanha, o país mais influente (e rico) do continente. “Do jeito que as coisas estão, nós viramos o lixo da União Europeia”, diz o arquiteto Dimitris Chalastanis, de 26 anos. “Nós não conseguimos exportar nossos produtos e nossos salários só diminuem.” 

Todas as mudanças impostas à economia grega nos últimos anos só fizeram a crise se acentuar, diz Valeria. “O que a Alemanha nos manda fazer deixa tudo mais caro. Não tem emprego. Do jeito que as coisas estão, eu prefiro o plano B, vai ser melhor para a Grécia. Eu digo isso porque quero ficar aqui.” 

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