ROGERIO CAVALHEIRO/FUTURA PRESS
ROGERIO CAVALHEIRO/FUTURA PRESS

Manifesto critica política industrial

Entidades patronais e lideranças sindicais lançaram coalização apartidária com o objetivo de cobrar soluções para a crise do setor

O Estado de S. Paulo

06 Abril 2015 | 21h28

Entidades industriais e centrais sindicais se uniram nesta segunda-feira e lançaram a Coalizão Capital/Trabalho para a Competitividade e o Desenvolvimento da indústria de transformação. No documento assinado por 42 entidades patronais e cinco lideranças sindicais, constam reclamações tradicionais do setor sobre a dificuldade com câmbio apreciado, juros elevados, cumulatividade de impostos e alta carga tributária.

A coalização se credencia como apartidária e vinha sendo costurada desde o ano passado. O lançamento do manifesto estava previsto para março, mas foi adiado por causa das manifestações de 15 de março contra o governo. “Não é contra governo. É um movimento apartidário, um grito de alerta para o desmonte da indústria de transformação”, afirmou Carlos Pastoriza, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) - entidade que lidera a mobilização - ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.

A presidente Dilma Rousseff não foi citada nominalmente por nenhum dos interlocutores nos discursos. Apenas alguns integrantes da plateia gritaram de forma isolada “Fora Dilma”.

A indústria tem sido o setor da economia mais afetado pela desaceleração econômica e ainda não conseguiu se recuperar dos efeitos da crise internacional. Em fevereiro, por exemplo, a produção industrial despencou 9,1% na comparação com o mesmo mês de 2014. Foi a maior queda da produção desde julho de 2009.

Críticas. Antes aliado e conselheiro do governo Dilma, o empresário Jorge Gerdau Johannpeter integra a coalização e se mostrou, segundo disse, “emocionado e até irritado” com a condução da política econômica. Gerdau pediu exoneração da presidência da Câmara de Gestão - criada em 2011 - do governo Dilma no fim do ano passado.

O empresário condenou a cumulatividade de impostos, com 10% a 15% de tributos “escondidos” ao longo da cadeia produtiva, câmbio não competitivo sustentado por uma “política artificial” e juros “lá em cima”.

Os discursos mais acalorados vieram dos sindicalistas. “Se o juro não baixar, o Brasil vai parar”. “Acabar com a indústria brasileira é acabar com o emprego também”, afirmou o presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Ubiraci Dantas de Oliveira.

O presidente da Força Sindical, Miguel Torres, afirmou que a pauta apresentada repete “o grito de alerta” organizado pelas mesmas entidades em 2011. Na ocasião, disse ele, não houve qualquer avanço. “Temos praticamente a mesma pauta, que só atualizamos, pois a crise piorou ainda mais”, disse. Segundo Torres, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) - próxima ao governo - participou das discussões e em parte apoia o movimento. “Mas lá há problemas internos”, disse. A CUT tem feito manifestações para contrapor aos protestos, mas sem deixar de criticar medidas de ajuste fiscal - planeja uma manifestação para esta terça-feira.

Investigação. A reação do setor empresarial vem em um momento delicado. Afora os problemas na economia, grandes empresas estão em investigação em duas operações da Polícia Federal e do Ministério Público, a Lava Janto, envolvendo esquema de corrupção na Petrobrás, e a Zelotes, que averigua um esquema de compra de sentenças no “tribunal” na Receita Federal, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf).

Fora da coalização, o presidente da Federação das Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, relativizou a importância do movimento. Ao ser questionado sobre o que pensa sobre a iniciativa, Skaf disse entender que o momento pelo qual passa o Brasil já é de muita confusão. “Não é adianta você jogar mais gasolina na fogueira, que já está forte”, disse. / ANA FERNANDES, CARLA ARAÚJO e FRANCISCO CARLOS DE ASSIS 

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