Mantega ameaça elevar IOF e intervir no câmbio para deter capital especulativo

Em Londres, ministro da Fazenda diz que não vai aceitar enxurrada de dólares no País nem perda de competitividade da indústria

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / LONDRES, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h07

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o governo vai elevar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para conter a entrada de capital especulativo se a injeção de recursos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do Banco Central Europeu (BCE) às suas economias resultar num maior fluxo de dinheiro para o Brasil.

Ontem, em Londres, Mantega deixou claro que o governo vai intervir no mercado de câmbio e, mesmo chamado de protecionista, avisou que não vai tolerar perda de competitividade da indústria nacional. "A guerra cambial é uma realidade", afirmou.

Mantega terminou uma semana de viagem pela Europa, dedicada a passar a mensagem a jornais e líderes locais de que o governo vai atuar para defender suas exportações e a produção doméstica. "O Brasil vai reagir e não permitiremos que o real se valorize. Não deixaremos haver perda de competitividade do Brasil", disse ontem durante seminário organizado pela revista The Economist. "Não deixaremos ter uma queda de competitividade, principalmente no setor industrial. Esse é o que sofre. Queremos ter uma indústria forte."

"Se houver grande fluxo de capital americano ao Brasil, nós teremos de comprá-los. Vamos aumentar as reservas ou vamos fazer operações no mercado de derivativos, compras no mercado futuro. Se não for suficiente, tomaremos medidas de taxação de IOF, como já fizemos no passado", declarou.

Mantega admitiu que, por enquanto, o dinheiro do Fed ainda não entrou na economia: "Mas o que preocupa é que a intervenção é ilimitada e não tem prazo para terminar. Se isso for praticado, nós tomaremos as medidas no momento oportuno".

O seminário era sobre mercados emergentes. O objetivo era mostrar a potencialidade da economia brasileira. Mas Mantega dedicou parte de sua intervenção a investidores estrangeiros para acusar países ricos por inundar o mercado de recursos e explicar o impacto no Brasil. Ontem, garantiu que o País vai reagir se for afetado e apontou que são essas medidas monetárias do Fed, e não as barreiras brasileiras, que deveriam ser consideradas protecionismo.

"Além de medidas diretas de protecionismo dos EUA, ainda temos o "quantitative easing" (injeção de recursos na economia pelo Fed, o banco central dos EUA), que é uma forma indireta de protecionismo, porque desvaloriza a moeda local, reduz o valor do dólar, e um dos objetivos disso é poder aumentar as exportações dos EUA", afirmou.

Liquidez. O argumento defendido pelo Brasil é de que os EUA e Europa já estão saturados de liquidez e a injeção de mais dinheiro não apenas não resolve a crise como transfere o problema para os demais países, afetando as moedas de emergentes. "Uma parte dessa liquidez acaba migrando para países emergentes, e isso é um defeito da medida. Ela não tem contrapartida de política fiscal que atrairia o dinheiro para a produção."

"O que queremos é que todos os países tenham condições de crescer, de expandir o PIB, de expandir o mercado internacional", defendeu o ministro. "O que não podemos é tentar resolver os seus problemas à custa de outros países. Nós temos de estimular o mercado interno e ajudar os EUA a fazer política fiscal. Entendo que há um problema político, mas em algum momento vão ter de fazer políticas fiscais", alertou.

Mantega ainda dedicou parte de seu discurso a atacar os países ricos, denunciando os "excessos e ineficiências dessas políticas". Mas disse que ela não foi acompanhada por uma política fiscal. No caso americano, Mantega culpou "o Congresso dominado pelos republicanos".

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