Mantega cogita elevar meta do superávit para combater inflação

Esta medida, segundo ministro, teria como objetivo garantir crescimento sem que haja surto inflacionário

Célia Froufe, Agência Estado, e Reuters,

04 de agosto de 2008 | 10h32

O governo pode aumentar a meta de superávit primário das contas públicas para combater o avanço da inflação, afirmou nesta segunda-feira, 4, o ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Serão tomadas as medidas fiscais e monetárias necessárias para garantir o controle da inflação. Se for necessário, aumentaremos a meta de superávit primário, mas a dose do remédio não deve exceder as necessidades do paciente", disse Mantega durante palestra em evento em São Paulo.    Veja também: BC atuará de 'forma vigorosa' contra inflação, diz Meirelles Mercado aposta em alta do juro e 'leve' queda da inflaçãoBC quer inflação no centro da meta em 2009, diz MeirellesEntenda os principais índices de inflação  Entenda a crise dos alimentos  De olho na inflação, preço por preço Após a palestra, porém, o ministro afirmou que a possibilidade de o aumento da meta do superávit primário não se faz necessária no momento, porque a inflação dá sinais de desaceleração. "O que eu disse é que se fosse necessário, usaríamos mais a política fiscal, já que é mais eficiente e menos danosa do que o instrumento monetário", afirmou, argumentando que alta dos juros acaba sendo registrada como despesa para a União.  A meta de superávit fiscal para 2008 é de 3,8% com um acréscimo de 0,5 ponto percentual que será destinado para a formação do chamado fundo soberano. Esta medida, segundo Mantega, teria como objetivo garantir que o crescimento continue sem que haja nenhum surto inflacionário. Nos últimos 12 meses até junho, o superávit primário das contas públicas acumulou valor equivalente a 4,27% do PIB.  Choque O ministro avaliou que o choque das commodities está "amainando'. De acordo com ele, os preços atingiram o seu máximo e, agora, já mostram sinais de desaceleração. "Claro que não posso afirmar que isso será permanente, mas é boa a probabilidade", disse. Ele deu como exemplo mais evidente a trajetória descendente do preço do petróleo.  Além disso, comentou que os alimentos também vêm apresentando queda. "A inflação mundial nos atinge e some-se a isso o aquecimento da economia brasileira, que vem apresentando expansão superior a taxas históricas", comentou. Para ele, estes dois pontos - inflação mundial e aquecimento doméstico - proporcionam um certo risco da difusão da inflação, que já existe por meio da alta das commodities. "Essa é uma preocupação nossa: impedir que haja uma difusão da alta dos preços", afirmou.  Na avaliação do ministro, a demanda doméstica cresceu além dos limites da sustentabilidade da economia brasileira, encerrando 2007 com expansão de 7,1%, acima do PIB do período de 5,4%. "De fato, a demanda doméstica aqueceu um pouco além do desejado", considerou.  Mantega insistiu na tese de que o principal vetor da inflação é o segmento de alimentos e bebidas, lembrando que até 2006 este grupo de produtos contribuiu para a baixa da inflação. "Isso é incontestável. Fica difícil, como alguns querem fazer, desmentir que o principal fator de alta da inflação brasileira são os alimentos." Durante sua palestra, ele lembrou que o IPCA acumulado em 12 meses até junho estava em 6,62%, enquanto a inflação dos alimentos no mesmo período acumulava elevação de 15,79%. O ministro reforçou, no entanto, que a inflação não traz apenas más notícias. Ele mencionou que a Focus da semana passada apresentava projeção mediana de 6,54% para o IPCA do fim do ano, mas que, para os anos seguintes, essa expectativa já estava mais alinhada com o centro da meta de 4,5%. "Podemos dizer que a inflação está sob controle no Brasil e que o governo não está de braços cruzados", disse. Ele salientou que desde o início do ano foram tomadas medidas de caráter fiscal e monetário para ajudar a combater a inflação. Na questão fiscal, ele citou o aumento da meta de superávit primário de 3,8% para 4,3%, a redução de impostos sobre importações, desoneração tributária, ano safra 2008/2009 e o estímulo ao investimento por meio do PAC e da política industrial. "Ao contrário do que foi feito no passado, não estamos abortando o crescimento", disse ao acrescentar que em relação ao ano-safra, apesar de esse incentivo ser anual, o deste ano foi mais robusto e com maior ênfase para o crédito.  Na área monetária, Mantega citou a restrição à expansão do crédito ao consumidor por meio do aumento da alíquota do IOF para pessoas físicas, a instituição do compulsório sobre leasing e o aumento da taxa básica de juros. Em abril, o Banco Central iniciou o atual ciclo de aumento monetária e, até agora já houve o aumento de 1,75 ponto porcentual da Selic que, segundo o ministro, servirá para reduzir a demanda agregada. "Repetindo as palavras do presidente Lula, o melhor remédio para combater a inflação é aumentar a produção", disse.  Na avaliação do ministro, a economia brasileira deve crescer este ano entre 4,8 e 5% e desacelerar em 2009 para um patamar de 4%. "Discordo de quem fala de 3 a 3,5% (de crescimento no próximo ano)... O governo não permitirá uma desaceleração da economia para esse patamar", afirmou o ministro. De acordo com o último levantamento feito pelo Banco Central com analistas de mercado, divulgado nesta segunda-feira, as projeções indicam crescimento de 4,80% para a economia em 2008 e de 3,9% para 2009. (com Reuters)

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