Mantega culpa subsídio de países ricos por inflação de alimentos

Ministro da Fazenda diz que crise eleva urgência para a conclusão da Rodada de Doha

Nalu Fernandes, de O Estado de S.Paulo,

13 de abril de 2008 | 14h24

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, avalia que é imperativo avançar além da assistência tradicional na área de alimentos para um foco no desenvolvimento agrícola. Em discurso no Comitê de Desenvolvimento do Banco Mundial (Bird) neste domingo, 13, o ministro alertou que muitos pequenos agricultores estão sendo empurrados para fora do negócio por causa de distorções criadas pelos subsídios agrícolas. Mantega disse ainda que a crise financeira elevou a urgência da conclusão de um acordo ambicioso e favorável ao desenvolvimento na Rodada de Doha, que conduza à eliminação de subsídios agrícolas e tarifas nos países desenvolvidos.   Veja também: Líderes mundiais pedem urgência contra inflação de alimentos Para FMI, alta dos preços ameaça estabilidade política  Álcool brasileiro tem menos impacto em alimentos, diz Bird   Especial sobre a crise de alimentos  Celso Ming explica a alta da inflação  Economia global vive situação entre 'gelo e fogo', diz FMI Produção maior é saída contra inflação, diz Lula ONU pede medidas urgentes contra inflação de alimentos Entenda os principais índices de inflação    Com relação aos biocombustíveis, Mantega observou que a produção de biocombustível a partir de cana-de-açúcar pode se mostrar como uma tecnologia promissora em diversos países em desenvolvimento, e deveria ser apoiada como uma fonte estratégica de energia limpa para gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos. "Pesquisa recente corrobora o caso contra mercados altamente protegidos e subsidiados para biocombustíveis no mundo desenvolvido", defendeu o ministro.   O discurso foi feito por Mantega em nome da Constituency do Brasil no Banco Mundial (Bird), composta por Brasil, Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti, Panamá, Filipinas, Suriname e Trinidad e Tobago. O ministro brasileiro parabenizou o Bird pelo "New Deal" para a Política Global de Alimentos, com objetivo de abordar a chamada "meta esquecida do milênio", que é a redução da má nutrição.   "Apoiamos o aumento proposto para o investimento em agricultura a fim de ajudar a criar uma 'Revolução Verde" para a África Subsaariana e outros países pobres", afirmou. Ele também parabenizou o presidente do banco, Robert Zoellick, pelo serviço a favor "de uma globalização inclusiva e sustentável".   Para Mantega, o Bird deveria estar preparado para fornecer suporte financeiro quando necessário. O ministro acredita que a falta de progresso em diversos países com relação ao cumprimento das Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM) tem explicação apenas parcial em fatores domésticos. "Fatores externos também têm contribuído."   Muitos países desenvolvidos, ponderou Mantega ao Comitê, têm ficado distante de cumprir seus compromissos em apoiar países de baixa renda, incluindo países da África. "A prioridade do Bird em relação aos países pobres deveria conduzir a um maior engajamento com os países de renda média, onde vivem 70% da população pobre". Os países de renda média, disse Mantega, poderiam ajudar os países de baixa renda por meio do comércio, integração regional e cooperação Sul-Sul (trocas comerciais entre os países do Hemisfério Sul).   No discurso, o ministro advertiu que, embora a crise financeira não tenha tido impacto significativo sobre países em desenvolvimento, isto poderia mudar exatamente quando estes países estiverem colhendo os frutos dos benefícios econômicos e sociais das conquistas de grande diligência adotadas para eliminar fontes de instabilidade em suas próprias economias.   Assim como no caso do Fundo Monetário Internacional, Mantega acredita que aumentar a representação dos países em desenvolvimento dentro do Banco Mundial é central para aumentar a legitimidade e eficiência do Bird como uma instituição multilateral. Ele avalia a reforma do Fundo como positiva, mas diz que não pode ser a base para a reforma do Bird, que teria de refletir o mandato distinto da instituição multilateral.

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