Mantega defende intervenções do BC para conter o real

Apoio do ministro a uma maior atuação do Banco Central no câmbio movimentou o mercado financeiro e o dólar reagiu com alta na cotação

Eduardo Rodrigues,Adriana Fernandes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendeu ontem a ideia de que o Banco Central faça intervenções no mercado futuro de câmbio para conter a valorização do real em relação ao dólar.

O apoio de Mantega a uma maior atuação do BC no câmbio, em meio a uma entrevista para falar sobre o rombo nas contas externas, movimentou o mercado financeiro e reforçou as apostas de que o BC atuará em breve. Logo após as declarações do ministro, o dólar reagiu com alta.

"Sou favorável à atuação no mercado futuro, sempre que houver necessidade", disse ele. De acordo com Mantega, o déficit de transações correntes do País por si só deveria provocar a queda do real, mas isso não ocorre por causa da volumosa entrada de dólares no mercado financeiro, em compras de títulos e ações. Mantega disse que, por enquanto, não vê "forte ação especulativa" no mercado cambial, mas recomendou atenção: "Cabe ao BC acompanhar".

O ministro acrescentou que, apesar do descompasso entre a tendência de queda no real e a formação de preços futuros, o governo não vai alterar nenhuma regra para regular o câmbio. "Não estamos pensando em mexer nos mecanismos regulatórios." O Ministério da Fazenda tem interesse na desvalorização do real para dar mais competitividade às exportações brasileiras. A queda nas exportações e o dólar barato têm aprofundado o rombo nas contas externas, que no primeiro semestre foi o maior desde o início da série histórica, em 1947.

A solução, para Mantega, estaria na valora dos leilões de "swaps" cambiais reversos, operação na qual o BC faz uma troca (significado do termo em português) de contratos com instituições financeiras, remuneradas por uma taxa de juros, enquanto a autoridade monetária recebe a variação cambial durante a validade dos papéis.

Na prática, essas operações têm o mesmo efeito de uma compra de dólares no mercado futuro, aumentando a demanda e, consequentemente, provocando alta na cotação da moeda americana. O instrumento foi bastante utilizado no auge da crise global, mas o BC zerou todas as posições nesse tipo de operação em 5 de maio do ano passado, data do último leilão.

Na sexta-feira, o próprio BC já havia sondado bancos sobre a uma nova intervenção dessa modalidade no mercado. Mantega também citou outro instrumento já utilizado pelo BC há alguns anos: a limitação para exposição cambial dos bancos no mercado. Os bancos hoje estão apostando numa valorização ainda maior do real, conforme dados divulgados na segunda-feira pelo BC.

Para o gerente de câmbio da Fair Corretora, Mário Batistel, no entanto, a segunda alternativa apresentada pelo ministro é de mais difícil execução. "O lobby das instituições financeiras é muito forte." O economista aposta mesmo no retorno dos leilões de troca. "A ideia é realmente essa, pois o instrumento funciona como catalisador. É o caminho para apressar o processo de desvalorização do real."

Freio na moeda

GUIDO MANTEGA-MINISTRO DA FAZENDA

"Sou favorável à atuação no mercado futuro, sempre que houver necessidade"

"Cabe ao BC acompanhar"

"Não estamos pensando em mexer nos mecanismos regulatórios"

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