Mantega diz a Lula que alta de juros preocupa

Ministro mostra estudos sobre a desaceleração da economia, para evitar alta da Selic, mas presidente diz que a decisão é do BC

João Domingos, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

A expectativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de sua equipe de auxiliares mais próximos é de que, na reunião da próxima quarta-feira, o Conselho de Política Monetária (Copom) decida não elevar a taxa básica de juros (Selic). Ou, se o fizer, que não chegue aos 0,75% que vinham sendo projetados pelo mercado financeiro.

De acordo com um dos auxiliares mais próximos do presidente, Lula já foi informado de que a economia brasileira vem dando sinais de desaceleração. Na quarta-feira, por exemplo, o Banco Central divulgou o Índice de Atividade Econômica, que ficou estável em maio, comparado com abril. O índice é calculado pelo próprio BC.

Na mesma quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, procurou Lula para falar de suas apreensões a respeito dos juros. Disse ao presidente que um aumento da taxa Selic em 0,75% elevará os juros para 11%, o que, na visão dele, pode comprometer o crescimento do País no próximo ano e nos seguintes.

Mantega disse a Lula que até aceita um aumento, desde que não seja o que estava sendo previsto pelo mercado financeiro antes da comprovação da estabilidade no crescimento da economia, de 0,75%.

Mantega entregou a Lula estudos que, segundo ele, comprovam o que vinha falando desde o primeiro trimestre: desaceleração da economia a partir de abril, com estabilização inflacionária, visto que o preço dos alimentos tenderia a cair com o fim da chuvarada que ocorreu no início do ano.

Independência do BC. De acordo com auxiliares de Lula, ele não pretende conversar com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a respeito das queixas de Mantega.

O presidente julga que não será necessário, porque os dirigentes do BC têm mais informações sobre tendências da inflação e comportamento da economia do que todos os que despacham no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), a exemplo dele mesmo.

Atualmente a taxa Selic está em 10,25% ao ano. Todas as projeções feitas pelo mercado financeiro são de que até o fim do ano deverá estar entre 11% e 11,5%.

Como já foi aumentada por duas vezes seguidas em 0,75% - já no período da pré-campanha eleitoral, e quando o BC projetava crescimento muito forte da economia, o maior em 15 anos -, Lula tem dito que o BC está liberado para agir com total independência em todos os momentos, porque sempre acertou quando foi chamado.

Lula costuma repetir sempre que a rápida intervenção de Henrique Meirelles durante a crise econômica mundial, ao liberar cerca de R$ 100 bilhões dos depósitos compulsórios, para que irrigassem o crédito que escasseava, foi fundamental para que o Brasil sentisse menos os efeitos da quebradeira que se avizinhava.

Tanto é que nas dúvidas de Meirelles a respeito de se candidatar ou não a governador de Goiás, decidiu liberar o presidente do BC caso este optasse mesmo por disputar o cargo, mas lembrou a ele que preferia tê-lo na equipe até o fim do governo. Henrique Meirelles acabou ficando.

Se a inflação recrudescer no segundo semestre, Lula disse a seus auxiliares que prefere ver o Banco Central agindo com rigor, de forma a controlá-la, do que não ter mão firme e deixar que desande.

"Da parte do meu governo não se repetirá o que ocorreu no final de 2002, quando o governo (de Fernando Henrique Cardoso) deixou para o sucessor (no caso, ele, Lula), uma taxa de inflação de 12,5% e o dólar perto de R$ 4,00", tem repetido Lula, segundo auxiliares.

PARA LEMBRAR

Em 28 de abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deu início a um novo ciclo de alta na taxa básica de juros (Selic). Na ocasião, o aumento da Selic foi de 0,75 ponto porcentual. Na reunião seguinte (9 de junho), outra alta de 0,75 ponto porcentual, para 10,25%. A previsão de economistas é que os juros encerrem o ano em 11,75% - três pontos porcentuais acima dos 8,75% válidos entre julho de 2009 e abril de 2010.

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