Mantega nega ajuda a empresas com problemas com câmbio

Ao contrário do que declarou presidente do BNDES, ministro diz que 'governo não vai salvar nenhuma empresa'

Anne Warth e Célia Froufe, da Agência Estado,

27 de outubro de 2008 | 13h18

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou nesta segunda-feira, 27, que o governo vá socorrer empresas que entraram no mercado de derivativos e que agora registram prejuízos em seus balanços e citou que essas perdas, segundo o mercado, poderiam chegar a US$ 20 bilhões. Ao contrário do que declarou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, na semana passada, Mantega afirmou que "o governo não vai salvar nenhuma empresa". "Empresas que ousaram têm que pagar o preço de sua ousadia", acrescentou, após reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.   Veja também: Lições de 29 A crise de 29 na memória de José Mindlin Veja o que muda com a Medida Provisória 443 Veja as semelhanças entre a MP 443 e o pacote britânico Consultor responde a dúvidas sobre crise   Como o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitos Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise A cronologia da crise financeira  Dicionário da crise    Ele afirmou que essas empresas representam um dos principais problemas de crédito no País. Até o momento, três grandes empresas, Aracruz, Sadia e Votorantim, vieram a público relatar as perdas. Apesar desse quadro negativo para o mercado acionário, o ministro quis passar uma avaliação positiva sobre o tema. "Há perspectiva de equacionar o problema da Aracruz nos próximos dias", afirmou. Mantega admitiu que há outras companhias com problemas, mas de magnitude menor.   Ele citou valores das perdas que estariam circulando no mercado de até US$ 20 bilhões, reforçando que não são números do Ministério da Fazenda. "Mas se for isso mesmo, é absolutamente absorvível", previu. O ministro destacou que não é possível ter conhecimento do valor total dos prejuízos das companhias com os derivativos porque há operações de balcão e também no exterior. Estas negociações apenas vêm a mercado quando a empresa faz as declarações. "Nenhum valor grande foi mencionado até agora. O maior é o da Aracruz", comparou, acrescentando mais uma vez que não há problemas de crédito podre ou subprime no Brasil, como existe nos Estados Unidos.   Apesar de negar a ajuda, Mantega ressaltou que cabe ao governo o fornecimento de crédito para que operações sejam realizadas, como por exemplo, para a cobertura de margem na BM&F Bovespa. Ele garantiu que o governo não dará subsídios a essas corporações e que qualquer auxílio a essas empresas será a valor de mercado. "São companhias exportadoras sólidas, tradicionais e, passado o problema, vão continuar operando. Não vamos dar socorro às empresas", reforçou.   Mantega disse que leu as declarações do diretor-presidente da BM&F Bovespa, Edemir Pinto, a respeito do montante dos prejuízos das empresas, mas considerou que se trata de um valor modesto. Mantega salientou que são conhecidos até o momento apenas os prejuízos da Aracruz, Sadia e Votorantim. "Estas são as três maiores empresas com problemas. As demais são menores ou fizeram hedge, e só precisam de caixa no momento", analisou.   Crédito   Mantega disse ainda que continua a haver retenção de crédito pelos bancos ao setor produtivo e que o clima de desconfiança sobre as instituições que teriam ativos podres nos EUA permanece. "Não há uma melhoria substantiva do quadro, embora os governos tenham tomado várias medidas. Elas ainda não se traduziram em irrigação de crédito para o setor produtivo, continua a haver retenção de crédito", disse após a reunião. O ministro disse que as ações anunciadas pelos governos demoram para surtir efeito. Ele afirmou, no entanto, que é normal que essas medidas levem tempo para dar resultado.   "Os bancos que têm dinheiro não querem emprestar para outros porque ainda há desconfiança sobre quem tem ativos podres nos EUA", acrescentou. Mantega ressaltou ainda que essa retenção do crédito gera uma redução no valor dos imóveis nos EUA e Europa, o que diminui o poder aquisitivo da população. "Com isso, é quase certo que haverá retração na atividade econômica ou até mesmo uma recessão. Agora, o que está causando uma certa perturbação nos mercados é a certeza de que a retração econômica será forte. Algumas economias poderão dar sinais de recessão", explicou. Ele citou como exemplo o Reino Unido, que já registra crescimento negativo e poderá ser seguido por outros países.   Mantega afirmou, porém, que contágio dos problemas financeiros internacionais do exterior para o Brasil, a partir de agora, é mais psicológico e menos relacionado à realização das operações de fato. "O contágio agora é um pouco psicológico, não de operações", disse. "Não podemos deixar que haja esse tipo de contágio."   Apesar disso, Mantega admitiu que o País ainda passa por uma redução, ainda que momentânea, de oferta de crédito, mas que esse problema está sendo sanado pelo governo. Segundo ele, os bancos operam atualmente com um intervalo de 70% a 80% do crédito que ofereciam anteriormente. "Mas com a liberação dos compulsórios estamos recompondo os setores, estamos administrando os problemas que vêm de fora", minimizou.   Dólar   O ministro disse que a causa da desvalorização do real e de moedas dos países emergentes é a desalavancagem dos fundos de hedge, que estão procurando investimentos mais seguros por meio do dólar e do iene. "Temos agora a certeza da desaceleração das economias. O impacto aqui no Brasil continua o mesmo", garantiu. O ministro citou que o Banco Central está ativando uma linha de leilões para a troca de títulos públicos por dólar, de forma a obter recursos para financiar as linhas de exportação, como por exemplo os Adiantamentos dos Contratos de Crédito (ACC). "Isso já está funcionando. Está começando a irrigar os ACC", declarou.   Mantega disse ainda que o Ministério da Fazenda e o BC estão atuando junto com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal para que o crédito possa chegar na mão dos consumidores, investidores e empresas que precisam deste recurso. "Estamos preocupados com a irrigação do setor agrícola, construção civil, automobilístico, capital de giro em geral e capital de giro para pequenas em médias empresas. Iremos irrigá-los", prometeu.   Derivativos   As empresas Sadia e Aracruz foram as primeiras a anunciar perdas com operações no mercados de câmbio. A perda da Sadia, que chega a R$ 760 milhões, provocou a demissão do diretor de Finanças e Desenvolvimento Corporativo da companhia, Adriano Lima Ferreira. Estas perdas são decorrentes da alta do dólar, motivada pela aversão ao risco que tomou conta dos mercados. Regra geral, em momentos de crise, os investidores buscam segurança em títulos da dívida norte-americana, o que provoca a valorização do dólar.   Tanto a Sadia quanto a Aracruz realizaram operações no mercado de derivativos de câmbio - a empresa se posicionava buscando ter lucro com a eventual manutenção da tendência de valorização do real ante o dólar, o que acabou não acontecendo devido ao agravamento da crise. A alta do dólar, que chegou a beirar os 18% em setembro, fez com estas operações resultassem em prejuízo.   Empresas de alimentos brasileiras com forte atuação em exportações normalmente atuam com derivativos de câmbio buscando compensar (hedge/segurança) eventuais perdas em receita nas exportações geradas pela valorização do real frente ao dólar. Mas no caso da Sadia, como reconheceu o diretor, as operações extrapolaram o hedge que seria adequado. Questionado se em momentos anteriores à crise, já que essas operações ocorriam há algum tempo, a empresa registrou lucros devido à queda do dólar, o diretor disse não possuir, no momento, detalhes sobre isso.

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