Mantega: 'nossa geração nunca viu crise tão profunda'

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, destacou hoje, em discurso no Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês), do FMI, "a situação crítica" a que foi levada a economia mundial. "A nossa geração nunca viu uma crise tão profunda. Especulação intensa nos mercados financeiros, falta de uma regulação e supervisão adequadas e mecanismos deficientes de resolução de crises em países importantes levaram ao que parece ser a pior débâcle financeira desde a Segunda Guerra Mundial", disse o ministro brasileiro, para, então, citar Franklin Delano Roosevelt, 32º presidente dos EUA: "Estamos todos sofrendo as conseqüências do individualismo selvagem." O ministro apontou que os Estados Unidos e a Europa estão no centro da tempestade financeira e lembrou que o FMI costumava tomar os sistemas financeiros dos países avançados como base para formular as chamadas ''best practices'' para gerenciamento financeiro. Por isso, ponderou, "uma vez estancada a hemorragia e ultrapassada a fase mais aguda da crise, caberá corrigir os erros do passado". "Espero que a crença infundada de que os mercados podem ser basicamente deixados a si mesmos seja enterrada por um longo período", afirmou. Em seguida, o ministro Mantega recorreu ao economista John Kenneth Galbraith: "Para todos os efeitos práticos, deve-se presumir que a memória financeira dure, no máximo, 20 anos." De toda forma, avaliou Mantega, "o modelo pré-crise", com base na premissa de auto-regulação, deve ser substituído por um "sistema cuidadosamente desenhado de controles e de supervisão". "Em muitos casos, dada a globalização das finanças, isso demandará estreita cooperação internacional", afirmou. BricsO ministro Mantega reconheceu que os países em desenvolvimento estão sendo crescentemente afetados pela crise, mas acrescentou que projeções do FMI para o PIB, revisadas para baixo, ainda indicam "taxas relativamente altas para o mundo em desenvolvimento em 2008 e 2009". O ministro citou que, de acordo com as estimativas do Fundo nos anos recentes, os países em desenvolvimento responderam por 75% do crescimento do PIB mundial, medido em termos de paridade de poder de compra. O Brasil, a China, a Índia e a Rússia continuam contribuindo com cerca de 40% do crescimento global. "Em 2009, os números do Fundo sugerem que a nossa contribuição para o crescimento mundial poderá ser ainda maior, dada a intensidade da desaceleração nos países desenvolvidos", acrescentou. O ministro destacou ainda que, em 2007/2008, "o mundo se defrontou com o maior choque de commodities desde os anos 70" e citou impacto considerável sobre membros "mais vulneráveis", que sentem "um efeito desproporcional sobre os pobres", o que, em alguns países, tem causado crises políticas e sociais. Ao mesmo tempo, Mantega disse apoiar a intensificação da assistência técnica aos países membros sobre políticas de resposta ao choque de preços de alimentos e combustíveis e pediu que a assistência técnica "seja prestada de forma a levar em conta as necessidades individuais e as particularidades dos países". "Também instamos o Fundo a fazer recomendações de política de forma eqüitativa e equilibrada", acrescentou. "Por exemplo, não apoiaríamos a inclusão de medidas de reformas de subsídios no mandato de monitoramento (do Fundo), se elas se referirem apenas aos países de renda média e baixa. Todos sabemos que os preços de combustíveis e alimentos são significativamente influenciados pelos subsídios agrícolas e políticas energéticas dos países desenvolvidos. O FMI tem o dever de adotar uma abordagem abrangente", afirmou.

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